segunda-feira, 14 de junho de 2010

Sorte

Considero que sou uma pessoa de sorte e com sorte. Minhas especialidades são sorteio e achar pessoas em situações improváveis.
Nos sorteios nunca ganhei grande coisa, neste quesito o mestre da família é meu irmão, que ganhou três carrões de uma só vez. Se você não conhece esta história, é sinal que nunca andou pela Rua Inglaterra, pois ele faz uma espécie de batismo com quem vai a casa dele, torturando as visitas com o DVD do Faustão falando que ele era o maior partido da cidade. Eu sou boa de ganhar prenda mesmo. Passei duas ressacas de carnaval em Salvador no wet´n wild, porque ganhei o sorteio no avião. Foram somente duas pessoas sorteadas com direito a convite de acompanhante e eu fui bicampeã. Mas nem sempre é bom ser boa de sorteio, pois também fui chamada várias vezes para responder a pergunta para a classe inteira. Teve uma vez que o sorteio era coisa boa, mas foi ruim. Eu estava num fretado USP – Unicamp, nunca tinha pegado aquele ônibus e nunca mais peguei. Eu era a única que tinha pagado a passagem avulsa, todos os outros eram mensalistas e faziam a viagem todos os dias. Formavam uma comunidade animadinha, afetuosos nos cumprimentos. Era véspera de páscoa e a dona da linha estava com um microfone na mão, contando entusiasmadíssima que daria uma cesta de chocolate ao número da poltrona que fosse sorteado. Na hora eu pensei: ferrou, vou ganhar essa droga e estragar a festa do pessoal. Não deu outra... Tive que aturar aplausos desencorajados e sorrisos amarelos e eu lá agradecendo com uma risadinha de Barbosa. Por total falta de jogo de cintura não consegui não aceitar e explicar que achava desproposital eu levar aquela cesta, então sai do ônibus carregando aquele bando de papel celofane sob olhares de incredibilidade.
Sobre a sorte de achar pessoas, eu comecei cedo, lá pelos quatro anos, quando perdi minha mãe no CIC – o estádio de futebol do São Bento. Era época de festas de fim de ano e anunciaram que o Balão Mágico estaria lá. Adorávamos a turma do Jairzinho e Simony. Eu até dormia com um Fofão. Fomos todos. Com o estádio lotado, meia dúzia de vigaristas inflaram um balão e este subiu pelo céu. Era isso o balão mágico!!! Eu devia estar entediada e saí dar umas bandas. Quando não consegui mais ver minha mãe procurei ajuda e quando o moço pediu referências eu expliquei: - Ela está de calça jeans. Mesmo não diminuindo significativamente a amostra a ser pesquisa com a minha informação, encontramos minha mãmi. Na viagem que mochilei por quase três meses na Europa tive muita sorte. Uma parte da viagem fiz sozinha e outra com uma amiga, a Elisa. De todos os encontros sortudos, o mais legal foi em Paris. Cheguei lá sozinha, no começo da noite do dia 1º de janeiro, estava tudo fechado. Pra piorar, os funcionários do metrô estavam em greve e a última informação que eu tinha sobre o albergue que queria ir era aquela estação. O lugar estava com pouco movimento e a única pessoa que tentou entender o que eu estava perguntando não me explicou por onde eu deveria ir, mas disse que era o caminho da casa dela e que seu a ajudasse com suas sacolas de compra, eu poderia segui-la. Não teria nada demais ajudá-la com aquelas dezenas de sacolas, não fosse eu estar com uma mochila de 14 quilos nas costas. Uma vaca, mas lá fui eu cheia de casacos, mochila nas costas e sacolinhas no braço, no pulso, na mão. Depois de um quarteirão nesta situação eu vejo dois moços vindo em minha direção e um deles era o Ricardo, irmão de uma amiga, que estava fazendo mestrado em Lyon. Na hora larguei tudo da dona vaca no chão e corri pro abraço, nem olhei para trás. O Ricardo tomou um susto com uma boneca de neve correndo em sua direção, ele só conseguiu me reconhecer quando eu já estava praticamente pulando em cima dele. Nem tínhamos muita intimidade, mas o cara é gente boa e entendeu os motivos da minha euforia. Depois ainda encontrei a pedrinha dele no Panthéon. Naquele mausoléu é tradição você assinar uma pedra com seu nome, cidade e data. Quando fui repousar a minha num cantinho não é que a dele estava lá! Mas isso é coincidência e não sorte. Sei que muitas pessoas apareceram na hora certa e me livrei de ciladas. Eu vejo hoje, que em várias situações meu juízo era inversamente proporcional a minha sorte.
Voltando às prendas, outro dia ganhei na academia uma profilaxia dentária no Ateliê Oral. Chique o lugar, tem até um Café Suplicy para os clientes. Na recepção me ofereceram de água a prosecco. Pode parecer simplesmente afetado, mas achei bem funcional uma biritinha para os casos de motorzinho. Saí de lá com uma nécessaire de mimos importados da Suíça e ainda um vale tratamento capilar no Studio W Iguatemi. Mais uma vez, o lugar era chique, com caras conhecidas de revista de fofoca e uma global ficou importunando a maçaneta enquanto eu estava no banheiro. Quando fui embora a sensação era que até meu cérebro estava massageado e meus cabelos planavam como a Cinderela no baile real. Minha decepção foi não ter ganhado nenhum vale. Estava contando que ali ganharia outro vale, outro, outro e mais outro, até chegar a novos e volumosos peitos de silicone. Puxa... O Eric iria gostar tanto.

2 comentários:

  1. Hahahaha!!!! Bia, não é só na Rua Inglaterra a "tortura", viu? Ele levou na empresa também uma vez e fez uma sessão com o vídeo depois do horário, rss.
    Vai ter sorte assim lá longe!!!!!
    Abraços.
    P.S.: Você escreve muito bem, é uma delícia de ler.

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  2. putz... ele realmente não tem limites!!
    TKS
    bjs

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