Praticamente todas as minhas férias da infância foram passadas em Peruíbe. Estava acostumada a ver meu pai de bermudão de elanca em tons de azul, com aquelas listras laterais branca e na frente o emblema de algum “time” de futebol que ele fundou. A bermuda abaixo da barriga de 9 meses de gestação e com o rego aparecendo era a única vestimenta. As costas largas sempre vermelha do sol o faziam parecer um lagostão, arrastando com suas pernas finas os chinelos Itapoan e mais tarde os Riders. Por baixo da bermuda usava um shorts-sunga preto para uma chuverada ou para um breve, bem breve mergulho no mar, mas quando o víamos molhado ele sempre garantia que tinha acabado de fazer o Atlântico a nado ou então, ter voltado da Ilha das Cobras. Posso fechar os olhos e vê-lo contando seus causos, piadas e mentiras em tom de discurso político com uma gargalhada no final. Sempre falante e mexendo com todo mundo, vivia cercado de pirilampos em torno daquela luz. Num concurso de carisma, certamente ele seria finalista.
O ponto oposto era meu tio, cunhado do meu pai. Suas elegantes bermudas em tons de cáqui deixavam seus magros joelhos à mostra e combinavam com os mocassins amarronzados. Outra possível combinação era da alpargata azul com a bermuda branca. A pólo por dentro, o cinto por fora. O relógio dourado e o leve cheiro de cigarro. Os cabelos, barba e bigode grisalhos não escondiam seu grande nariz adunco, revelando sua ascendência árabe, que ostentava com orgulho, assim como seu time, o Corinthians. A cabeça era proporcionalmente maior que seu corpo, com uma barriguinha de álcool se destacando.
Oitenta por cento do meu convívio com meu tio foi em Peruíbe, já que eles moravam em São Paulo, mas eu não tenho nenhuma lembrança do meu tio de sunga, acho que nem sem camisa. Ele era um homem de cara amarrada, com poucos amigos. Preferia ficar em casa lendo e fazendo palavras cruzadas ao invés de ir à praia. Freqüentemente eu era sua principal interlocutora, ele nas palavras cruzadas e eu colorindo, em nosso silêncio.
Ele me chamava de “sobrinha predileta” e era a mais pura verdade, assim como ele sempre foi o número um para mim. Eu dava a ele muita atenção e para mim ele só tinha palavras divertidas e de elogio, seguidas de um “ôrra meu”, abrindo um braço na direção do ombro e outro para cima. Nesta hora, seu sorriso se abria para mim. Foi dele que ganhei meu primeiro soutien, era verde água.
Dei muita sorte, porque meu primo tinha minha idade, éramos os caçulas. A meu ver ele era o queridinho do papai e assim usufrui programas muito legais! Meu tio nos levava até as cachoeiras do Paraíso para brincarmos, ou até o Guaraú somente para a gente ver uma praia mais bonita. Teve uma vez que rolou um vôo de helicóptero sobre a Juréia, eu declinei, nunca gostei de altura, nem de voar, mas eles foram. No centrinho de Peruíbe valia feirinha hippie, fliperama, parque de diversões, sorvete e milho verde, muito milho verde nos trailers da orla.
Se o assunto era refeição, não havia exceção, íamos para o Bóia, ele era amigão do dono. Eu me dava mal, era uma casa de peixes, mas sempre tem uma batata frita para salvar a pátria e eu nunca, nunca reclamei das opções que tinham para mim, afinal quem era cheia de restrição alimentar era eu e não o cardápio. Falando em peixe, teve uma vez que ele levou meu primo e eu para pescarmos caranguejo na ponte, com uma espécie de gaiolinha. No caminho de volta me liguei que a brincadeira de caçar os cascudos teria conseqüência e logo me arrependi. Assim que chegamos em casa corri para a praia para libertar os bichinhos antes que eles virassem entradas. Meu tio não conseguia entender...
No carnaval nos levou ver o desfile, tinha a Barão de Mauá, nas cores de azul e prata e uma outra escola vermelha. Ele falou que nós éramos do azul, então não havia dúvida, os azuis foram bem mais bonitos. Na volta, ele já cachaçado dirigiu comigo e meu primo no bagageiro, meu pai ficou uma arara e eu tive medo de ter nossos passeios proibidos.
O melhor dos nossos programas aconteceu por acaso. Meu primo, mimado que era estava emburrado porque queria comprar ou comer algo que meu tio não deixou. Por instrução do meu tio, deixamos o gordinho encostado no carro com os braços cruzados e fomos sentar na areia da praia. Encostados em uma grande pedra ele me convidou para descobrir as formas que as nuvens poderiam ter. Ali ficamos só nós dois, eu encantada com a novidade e o ápice foi quando ao meio de tantas nuvens que só se pareciam com pipoca eu achei o Snoopy!!
O sonho do meu tio era passar a velhice em Peruíbe. Infelizmente a velhice não chegou para ele, mas meus primos improvisaram e deixaram suas cinzas naquele mar, bem em frente ao Bóia. Mas, não é no mar que vejo meu tio e sim quando vejo formas no céu.
Obrigada, tio.
O ponto oposto era meu tio, cunhado do meu pai. Suas elegantes bermudas em tons de cáqui deixavam seus magros joelhos à mostra e combinavam com os mocassins amarronzados. Outra possível combinação era da alpargata azul com a bermuda branca. A pólo por dentro, o cinto por fora. O relógio dourado e o leve cheiro de cigarro. Os cabelos, barba e bigode grisalhos não escondiam seu grande nariz adunco, revelando sua ascendência árabe, que ostentava com orgulho, assim como seu time, o Corinthians. A cabeça era proporcionalmente maior que seu corpo, com uma barriguinha de álcool se destacando.
Oitenta por cento do meu convívio com meu tio foi em Peruíbe, já que eles moravam em São Paulo, mas eu não tenho nenhuma lembrança do meu tio de sunga, acho que nem sem camisa. Ele era um homem de cara amarrada, com poucos amigos. Preferia ficar em casa lendo e fazendo palavras cruzadas ao invés de ir à praia. Freqüentemente eu era sua principal interlocutora, ele nas palavras cruzadas e eu colorindo, em nosso silêncio.
Ele me chamava de “sobrinha predileta” e era a mais pura verdade, assim como ele sempre foi o número um para mim. Eu dava a ele muita atenção e para mim ele só tinha palavras divertidas e de elogio, seguidas de um “ôrra meu”, abrindo um braço na direção do ombro e outro para cima. Nesta hora, seu sorriso se abria para mim. Foi dele que ganhei meu primeiro soutien, era verde água.
Dei muita sorte, porque meu primo tinha minha idade, éramos os caçulas. A meu ver ele era o queridinho do papai e assim usufrui programas muito legais! Meu tio nos levava até as cachoeiras do Paraíso para brincarmos, ou até o Guaraú somente para a gente ver uma praia mais bonita. Teve uma vez que rolou um vôo de helicóptero sobre a Juréia, eu declinei, nunca gostei de altura, nem de voar, mas eles foram. No centrinho de Peruíbe valia feirinha hippie, fliperama, parque de diversões, sorvete e milho verde, muito milho verde nos trailers da orla.
Se o assunto era refeição, não havia exceção, íamos para o Bóia, ele era amigão do dono. Eu me dava mal, era uma casa de peixes, mas sempre tem uma batata frita para salvar a pátria e eu nunca, nunca reclamei das opções que tinham para mim, afinal quem era cheia de restrição alimentar era eu e não o cardápio. Falando em peixe, teve uma vez que ele levou meu primo e eu para pescarmos caranguejo na ponte, com uma espécie de gaiolinha. No caminho de volta me liguei que a brincadeira de caçar os cascudos teria conseqüência e logo me arrependi. Assim que chegamos em casa corri para a praia para libertar os bichinhos antes que eles virassem entradas. Meu tio não conseguia entender...
No carnaval nos levou ver o desfile, tinha a Barão de Mauá, nas cores de azul e prata e uma outra escola vermelha. Ele falou que nós éramos do azul, então não havia dúvida, os azuis foram bem mais bonitos. Na volta, ele já cachaçado dirigiu comigo e meu primo no bagageiro, meu pai ficou uma arara e eu tive medo de ter nossos passeios proibidos.
O melhor dos nossos programas aconteceu por acaso. Meu primo, mimado que era estava emburrado porque queria comprar ou comer algo que meu tio não deixou. Por instrução do meu tio, deixamos o gordinho encostado no carro com os braços cruzados e fomos sentar na areia da praia. Encostados em uma grande pedra ele me convidou para descobrir as formas que as nuvens poderiam ter. Ali ficamos só nós dois, eu encantada com a novidade e o ápice foi quando ao meio de tantas nuvens que só se pareciam com pipoca eu achei o Snoopy!!
O sonho do meu tio era passar a velhice em Peruíbe. Infelizmente a velhice não chegou para ele, mas meus primos improvisaram e deixaram suas cinzas naquele mar, bem em frente ao Bóia. Mas, não é no mar que vejo meu tio e sim quando vejo formas no céu.
Obrigada, tio.

A outra escola se chamava Pescadores e usavam vermelho e branco....e é só o que vou comentar. Amo você.
ResponderExcluirNem acredito que vc conseguiu ler até o fim. Sei bem a falta que ele te faz. Te amo, Rô.
ResponderExcluirImpossível conter as lágrimas...
ResponderExcluirAssim vc mata a gente, a cada dia a saudade aumenta, e a gente tem que aprender a conviver com ela novamente, só que maior!!!
ResponderExcluirO seu olhar é muito especial...PARABÉNS!
Tentando mais uma vez... acho que a Bia instalou mecanismos de censura.
ResponderExcluirPrimeiro, o mau humor do Tio Reinaldo era superestimado. Tendo convivido muitos e muitos anos com o meu pai, eu entendo bem de pessoas assim, que não tem paciência com os idiotas. O que é um erro, pois os idiotas constituem grande parte da população e saber lidar com eles é um caminho árduo, porém, necessário.
Eu sempre me dei super bem com o Tio Reinaldo. Eu o ADORAVA! Quando avisavam que ele ia chegar, eu ficava feliz pra caralho, pois sabia que ia escutar histórias de futebol e iríamos no bóia comer frutos do mar e outras delícias de semelhante jaez que a Bia restringe até hoje.
Ganhei dele uma camisa 10 do Corinthians e a usava direto, em homenagem ao Cara!
E por último, como lembrança marcante dessas férias em Peruíbe, onde também frequentei algumas vezes, gostaria de dizer que esses veadinhos sensíveis que reclamam de Bullying, não fazem ideia do que era conviver com o Júnior no seu AUGE!