sábado, 24 de julho de 2010

Das antigas

Já deve ter dado para perceber que eu gosto de histórias e este meu gosto se estende até aos móveis. Tem uma cristaleira que chegou ao apartamento do Eric semanas antes de mim, mas eu olho para aquela bichinha e penso que ela foi feita pra mim. Mas não foi. Ela foi feita para alguém 50 anos atrás. Isto quer dizer que a cristaleira tem uns vinte anos a mais que eu, e para ser sincera, ela está muito mais inteira. Tem suas vantagens ter o acabamento em madeira... Hoje guardamos algumas taças, copos e na parte escondida poucas bebidas, mas o que será que já foi colocado lá? Como será que já foi recheada? Será que ela vivia em um lar austero? Onde um senhor de cabelo engomado, pernas cruzadas, fumando cachimbo era servido de drinks em copos e taças guardadas na cristaleira? Será que quem o servia tinha cabelos grisalhos, fofos e curtos? E usava colar de pérolas, vestido de linho abaixo do joelho com delicados detalhes em renda? Será?
Tem um armário chinês que faz muito sucesso aqui em casa. Usamos para guardar louças. Ele é robusto e maciço. Acertaram na mão neste design, pois fazem este modelo a não sei quantos anos e continua sendo lindo. Tomara que ele não tenha sido produzido por crianças, nem por “escravos”, prefiro pensar que foi por mãos habilidosas e treinadas de pequenos senhores com carinha de doutor Law, moradores de um vilarejo de interior. Eu sei que é romantismo, mas eu prefiro, ué.
Minha procura atual é por um par de poltronas do Zanine Caldas, um arquiteto capixaba bem bacana que misturou arquitetura e artesanato popular. O desenho da poltrona é limpo, com pé palito, charmosérrimo. Ainda nem as encontrei e já fico imaginando como estará o estofado. Acho que vai estar todo detonado, talvez rasgado, com molas soltas. Óbvio que iremos reformar, mas antes quero olhar e criar hipóteses sobre seus antigos donos. De alguma forma vou herdar esse móvel e de uma pessoa que eu nem imagino quem seja, sem saber quais eram seus gostos e hábitos. Será que nas décadas de 50, 60, 70 já foi usada para namorar na sala? Quem será que a usou para esta função? Os pais, os filhos, as visitas? Acho que uma poltrona de 60 anos já deve ter vivido de tudo nesta vida, mas o bom é que dá pra viver tudo de novo.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Chefia

Conversando outro dia com uma amiga ela me disse que apesar dos pesares a sua chefa era uma pessoa afetiva. Rá! Por ironia lembrei logo da minha última ex chefa. Era ela a personificação de um javali em forma humana. E para piorar, as semelhanças não se limitavam à aparência, mas estendia-se ao comportamento, aquele de atacar mesmo sem estar acuado, ou com fome, ou protegendo o grupo, enfim, ataca mesmo sem ter nenhum motivo aparente. Coisa rara na natureza. Mas não para chefes. Como toda picareta, sua especialidade era fazer política e brigar, brigar muito, para parecer uma pessoa exigente e comprometida. Si, si, muy comprometida, com o poder. Humilhar era sua prioridade, com batidas na mesa, telefones na cara, pisadas fundas, mau humor, muita contradição e falas mal educadas. Muita vergonha alheia por aquela pessoa. De cara já percebi o estilão e não era possível respeitar um javali daquele. E pra piorar a desgraçada não aprendeu a passar batom!!!! Aquilo sempre desviava a minha atenção. A grana era boa, muito boa para a realidade da minha profissão, também conheci muita gente legal, mas nada na vida compensava dividir meus dias com aquele ser. Ai, que alívio.
Em compensação, o antecessor era um Lorde. Não aquela pessoa que se esforça para ser educado e seguir protocolos, não. É uma alma gentil, que naturalmente é agradável. Com ele qualquer conversa era acréscimo fosse de trabalho ou não. Além de admirá-lo muito como pesquisador, intelectual e profissional, a sua história de vida é bastante interessante. Filho único, nascido no Nordeste, foi moço morar no Rio de Janeiro. Durante a faculdade de Economia participou do Movimento Católico de Estudantes, foi pego de jeito pela ditadura e se exilou na Bélgica. Lá terminou a faculdade e fez mestrado e doutorado em Demografia, quando voltou, ajudou a fundar o campo de estudo no nosso país. Obviamente, a influência do modo de vida europeu foi forte e o tornou ainda mais interessante, fora que não conheço outra pessoa que tenha feito a Transiberiana.
Quando seus pais já estavam bem velhinhos ele os trouxe para morar na Bela Vista. Mesmo separado e com os filhos já fora, comprou um apartamento grande, com sacada generosa para trazer alguma similaridade à Copacabana e assim deixar os pais mais ambientados. Seu pai, um dentista aposentado, ganhou um quarto extra, para ser transformado em laboratório, pois até hoje não há um só dia que ele não trabalhe em seus experimentos. A mãe já faleceu e o pai está forte, perto dos 100. Somente filho e pai dividem o espaçoso apartamento. Durante a semana uma pessoa cuida da casa e dá atenção ao senhorzinho, mas durante as noites e aos fins de semana o filho se contorce para se dividir entre o pai e os programas com a namorada. Aliás, namorada elegante à altura.
De todas as ligações que meu antigo chefe recebia, de jornais pedindo entrevistas a de seus colegas pesquisadores, a única que não tinha negativa era de seu pai. Eu adorava observar aquela cena: logo a voz de meu chefe ficava ainda mais serena e iniciava-se a discussão sobre a janta, que geralmente incluía peixe - influência de suas raízes nordestinas. Às vezes a pauta era sobre a cuidadora que não estava agradando ao velhinho. Ou então a ligação era para avisar sobre alguma coisa que estava faltando na casa, alguma dor diferente ou simplesmente quanto o filho iria demorar. O mais curioso para mim é que o filho não tratava o pai com aquela falta de paciência típica de quem responde para por fim à conversa, pois sabe onde ela vai chegar. Era um homem verdadeiramente atencioso, tratando de assuntos importantes para seu interlocutor, e hora ou outra dizia "–Sim, papai". Com este respeito e carinho aquele senhor era tratado e vai ser até o fim de seus dias. Pois ali houve sabedoria para reconhecer um verdadeiro chefe.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A menina dança

Certamente eu nunca precisarei ser estudada pela ciência. Não sou excepcional em nada. Nadinha. Naquela fase Vinícius de Morais, lá pelos 19 anos, quando se está ávido por viver de tudo, fiquei triste ao constatar que eu nunca participaria de uma olimpíada, nunca! Nunca conheceria aqueles alojamentos, nem desfilaria com o meu uniforme brasileiro misturada a tantos outros atletas com seus uniformes coloridos. O Hino não tocaria graças aos meus méritos. Fiquei realmente triste em perceber que essa experiência eu NUNCA teria. Palavra forte essa na época.
Olha que em termos de atividades eu tentei de tudo. Tudo também não, mas quase tudo. Basquete, natação, squash, tênis, mergulho, capoeira, futebol, equitação, surf e devo estar esquecendo de alguma outra coisa. As atividades orientais nunca me pegaram. Tentei tai chi chuan. Programinha zen no meio das árvores, mas eu não parava de pensar no Daniel-san e no Sr. Miyagi, não consegui levar a sério. Já a 1ª aula de yoga ia bem, tinha uma certa facilidade com as macaquices devido a experiência da capoeira, mas chegou a hora da meditação... E eu dormi. Não foi um cochilo qualquer, não. A professora teve que vir até mim para me acordar, um mico! Não tive coragem de voltar. Ultimamente a minha diversão é a corrida, que vem bem a calhar ao desespero de perder os quilos imperdíveis.
Todas estas atividades me encantaram, algumas mais outras menos, mas me diverti com todas. Paramentei-me, treinei e investi. Mas a verdade é que meu coração e minha alma já tinham donos: a dança. O ballet, o sapateado, o jazz, o irish tap. Ali eu me joguei e sonhei. Quando assistia aos vídeos das minhas apresentações eu achava pouco, pois na minha mente o que eu fazia era sensacional, era profissa. Mas não me abalava. O prazer de fazer um exercício de fundo, de pegar uma coreografia tecnicamente difícil e brilhar no palco sempre foi maior. Parei de praticar realizando um sonho, dançando no palco do Festival de Joinville. São quatro mil pessoas te aplaudindo. É um tranco de tanta energia com a tríade pose final, blackout e aplauso. Alucinante e inesquecível. Comemoramos muito nosso troféu. Na época eu estava me formando na faculdade e achava que já estava na hora de parar. Que engano. Você nunca para de dançar. Soltando o corpo, batendo o pé ou imaginando uma coreografia para a música que toca. É humano. Mesmo a pessoa mais desajeitada e tímida, um dia já dançou balançando o bumbunzão de fralda, dobrando os joelhinhos, fazendo a alegria dos espectadores.
Alegria combina com dança. Quantos não fazem uma dancinha para comemorar e extravasar a felicidade? Dança combina com criatividade, com experimentação, com desafio, com beleza, com emoção. Assisto às companhias internacionais, às nacionais, às minhas três sobrinhas, à minha irmã, às antigas amigas de coxia E sempre choro, um choro com gosto, de se satisfazer através do corpo do outro, de me imaginar ali, de sair do teatro rodopiando, leve como uma menina de três anos.
Aqui em casa há uma menina de quase três anos. Não, não sou eu, é minha filha e com ela formei um duo. Ah... como a gente dança. O sonzinho não para e lá estamos nós, botando pra quebrar, sorrindo uma para outra, sendo cúmplices de nosso prazer.
Quer saber? Ferrem-se as modalidades olímpicas! Um atleta não pode passar a vida nadando, saltando com varas, arremessando discos. Mas eu posso dançar... A vida toda, o tempo inteiro.




PS: Sabe aquela música que você acha justo que fosse sua? Essa é a minha:

A Menina Dança. Baby Consuelo

Quando eu cheguei tudo tudo / Tudo estava virado / Apenas viro me viro / Mas eu mesma / Viro os olhinhos / Só entro no jogo porque / Estou mesmo depois / Depois de esgotar / O tempo regulamentar / De um lado o olho desaforo / Que diz o meu nariz arrebitado / Que não levo pra casa / Mas se você vem perto eu vou lá / Eu vou lá / No canto do cisco / No canto do olho a menina dança / Dentro da menina / Ainda dança / E se você fecha o olho a menina ainda / Dança dentro da menina / Ainda dança / Até o sol raiar / Até o sol raiar / Até dentro de você nascer / Nascer o que há