Minha relação com a minha avó começou de fato quando aprendi a jogar mau mau. Eu era bem pequena, mas mesmo assim, não pense que ela deixava alguém ganhar. Aliás, se ela estava perdendo, ela roubava. No mau mau reza a lenda que quando alguém batia, ela somava as primeiras cartas e depois começava a subtrair, para não correr o risco de chegar a 100 pontos, explodir e ter que sair da mesa. Quando puxo pela memória, vejo mesmo que não fazia sentido ela ter apenas 26 pontos naquele bolinho de cartas avantajado. Bem educativo...
Apesar do mau mau ser o jogo da maioria, que podíamos nos reunir em grande grupo e eu ser bem zoada como a prima caçula e irmã do ser mais chato do planeta, era um jogo pra qualquer um. Foi quando aprendi a jogar tranca que minha relação com a minha avó ganhou densidade. E não é uma tranca qualquer, é a tranca de 15. Quinze cartas, sem morto, 75 pontos para a primeira baixada e 90 quando vul.
A paixão da vó Mina sempre foi o baralho. Com as amigas, irmãos, cunhadas, filhos e netos. Sempre tinha alguém na casa da minha vó, jogando, claro. Meu vô era o cicerone, se punha a fritar pastéis, servir, lavar louça e tomar cervejinha. Sempre tratando muito bem àqueles que faziam a diversão da minha avó. Afinal, ele não enxergava praticamente nada, não podia ser companhia para ela, não para o baralho, restava a ele vê-la feliz. Quando meu avô se foi, a presença dela entre nós se tornou protocolar, ela não estava mais com a gente. Só restava a ela o baralho. Quando o cérebro desandou com as isquemias, ela não conseguia mais jogar. Até fiz um teste, e vi que ela não reconhecia mais as ordens dos números, mas o J Q K e A ela seqüenciou, estava enraizado em algum cantinho preservado de sua memória. Teve dias que para passar mais rápido eu enchi a mão dela de cartas e ficamos jogando, mas dessa vez literalmente, só colocávamos uma carta sobre a outra no monte e só para brincar eu avisava: “estou por uma.” Acabou a jogatina e se foi a vó Mina.
Outro dia, estávamos almoçando na minha sogra e minha mãe começou a contar como fui companheira de minha avó depois da viuvez. Falava de quando eu voltava aos fins de semana à Sorocaba, e mesmo com a agenda “apertada” com os “compromissos” eu ia até a casa da minha avó para nosso carteado. Nisso eu suspirei e vagarosamente comentei: - Ai que saudade... de jogar uma tranquinha. Minha cunhada começou a rir chocada com meu comentário, ela achava que eu falaria – Ai que saudade... da minha avó. Tentei explicar, mas não sei se a convenci. O fato é que minha avó ficaria orgulhosa do meu comentário, afinal, isso que é DNA forte.
