quarta-feira, 23 de junho de 2010

DNA

Bem antes dos exames de DNA se popularizarem, já era possível saber se alguém era mesmo da minha família, herdeiro da Amália Guilhermina. Basta postar um baralho à frente do candidato e observar sua destreza ao embaralhar, distribuir as cartas e contar os pontos. O segundo teste é verificar se sabe ao menos uma dúzia de jogos de carteado, com total segurança sobre a s regras, a ponto das pessoas te consultarem quando surge uma picuinha sobre o que vale e o que não vale. Porém, só o último teste pode assegurar se estamos realmente diante de um parente: o vocabulário. Para as cartas com valores grandes que chegam quando alguém já está para bater, usa-se “CARNEGÃO”. Quando vem uma carta repetida nos jogos de sequência o termo é “DUBRÊ”. Por fim, o mais adorado pelas crianças: quando tudo está perdido fala-se: “FUI PRO CU DO TIGRE”. Tudo aprendido com minha vó Mina. Quanta eloqüência, não? E logicamente não deixamos nada disso cair no esquecimento. As gerações mais novas já estão aprendendo.
Minha relação com a minha avó começou de fato quando aprendi a jogar mau mau. Eu era bem pequena, mas mesmo assim, não pense que ela deixava alguém ganhar. Aliás, se ela estava perdendo, ela roubava. No mau mau reza a lenda que quando alguém batia, ela somava as primeiras cartas e depois começava a subtrair, para não correr o risco de chegar a 100 pontos, explodir e ter que sair da mesa. Quando puxo pela memória, vejo mesmo que não fazia sentido ela ter apenas 26 pontos naquele bolinho de cartas avantajado. Bem educativo...
Apesar do mau mau ser o jogo da maioria, que podíamos nos reunir em grande grupo e eu ser bem zoada como a prima caçula e irmã do ser mais chato do planeta, era um jogo pra qualquer um. Foi quando aprendi a jogar tranca que minha relação com a minha avó ganhou densidade. E não é uma tranca qualquer, é a tranca de 15. Quinze cartas, sem morto, 75 pontos para a primeira baixada e 90 quando vul.
A paixão da vó Mina sempre foi o baralho. Com as amigas, irmãos, cunhadas, filhos e netos. Sempre tinha alguém na casa da minha vó, jogando, claro. Meu vô era o cicerone, se punha a fritar pastéis, servir, lavar louça e tomar cervejinha. Sempre tratando muito bem àqueles que faziam a diversão da minha avó. Afinal, ele não enxergava praticamente nada, não podia ser companhia para ela, não para o baralho, restava a ele vê-la feliz. Quando meu avô se foi, a presença dela entre nós se tornou protocolar, ela não estava mais com a gente. Só restava a ela o baralho. Quando o cérebro desandou com as isquemias, ela não conseguia mais jogar. Até fiz um teste, e vi que ela não reconhecia mais as ordens dos números, mas o J Q K e A ela seqüenciou, estava enraizado em algum cantinho preservado de sua memória. Teve dias que para passar mais rápido eu enchi a mão dela de cartas e ficamos jogando, mas dessa vez literalmente, só colocávamos uma carta sobre a outra no monte e só para brincar eu avisava: “estou por uma.” Acabou a jogatina e se foi a vó Mina.
Outro dia, estávamos almoçando na minha sogra e minha mãe começou a contar como fui companheira de minha avó depois da viuvez. Falava de quando eu voltava aos fins de semana à Sorocaba, e mesmo com a agenda “apertada” com os “compromissos” eu ia até a casa da minha avó para nosso carteado. Nisso eu suspirei e vagarosamente comentei: - Ai que saudade... de jogar uma tranquinha. Minha cunhada começou a rir chocada com meu comentário, ela achava que eu falaria – Ai que saudade... da minha avó. Tentei explicar, mas não sei se a convenci. O fato é que minha avó ficaria orgulhosa do meu comentário, afinal, isso que é DNA forte.

Sorte, II

Maquiavel é o marco zero da ciência política, pelo menos para mim e outros tantos. O assunto vai, volta, cita um e outro e quando você vê, lá está o Maquiavel.
Adoro pensar que Napoleão, Marx e eu lemos O Príncipe. Óbvio que eu sei que o aproveitamento devido à bagagem intelectual foi bem diferente, mas a primeira parte já me satisfaz bastante.
O Príncipe pode ser encarado como um manual de estratégias para lidar com o poder. No caso, o poder de um príncipe que deveria unificar a Itália, então segregada em diversos condados. No entanto, o livro serve para as mais diversas situações que envolvam conquista e manutenção do poder, seja o poder de um governante, de um chefe, de uma mãe. Maquiavel nos ensina que a chave mestra para o êxito é aliar virtù e fortuna. Para simplificar, entenda-se virtù como um coletivo de virtudes e espertezas necessárias ao seu objetivo. Essas virtudes podem ser provenientes de talento, dom ou aptidão, mas é essencial combiná-las com o esforço, estudo, previsão, cálculo e precaução em relação aos problemas, para assim, compor um indivíduo valoroso. Já o termo fortuna vem de afortunado, sortudo, ocasião. A fortuna é o lado imponderável da vida.
Quem depender menos da fortuna terá melhores resultados, pois a virtù é mais estável. Maquiavel afirma que é possível conquistar o poder com a fortuna, mas somente com o mérito conseguirá mantê-lo. Mas, não adianta se enganar e pensar que se você fizer tudo certo nessa vida, seguir os melhores exemplos, o sucesso chegará, pois, não adianta a virtù sem a sorte, tampouco a sorte sem a virtù. Maquiavel diz: “Sem ocasião a virtù teria se perdido, sem a virtù a ocasião teria seguido em vão.”
Parece então, que apesar de todos os esforços, ficaremos sempre nas mãos da sorte, mas não é isso. A fortuna tem o poder sobre a metade das ações, já a outra metade depende do poder de ação. A fortuna mostra a sua força quando encontra a virtù desordenada.
Um dos pontos altos do livro é quando Maquiavel lança mão de uma figura mitológica para explicar essa dialética – mesmo que muito antes deste método ser teorizado. Ele conta que quem gira a roda da fortuna é uma mulher e como tal, ela é atraída pelos jovens, pelos mais audaciosos e menos tímidos. São os ferozes e corajosos, que a contrariam e a dominam que são contemplados por sua graça. A fortuna não é tão imponderável como parece à primeira vista, ela é atraída pela virtù.
Tendo tudo isto em mente, pensem como sou educada e objetiva ao responder “sim, obrigada” a todos que dizem que somos um casal muito sortudo por ter a Heloísa como filha, afinal ela é uma menina muito doce, esperta, madura, que aprende rápido e encanta facilmente. Não tenho dúvida que temos sorte, afinal, ela já chegou sem dar trabalho, a nossa parte está em mantê-la assim. Agora, numa situação contrária, de criança antissocial, arrogante, azeda, que chuta a canela, menos dúvida eu tenho de que a culpa rapidamente cairia sobre a criação e não à falta de sorte.
Meu amigo Luiz, aquele da Unicamp, contava que já tinha a resposta pronta quando colegas de trabalho vinham falar de como ele tinha sorte com o departamento, equipe, promoção etc. Ele respondia: “È mesmo, rapaz. E sabe que sorte é uma coisa engraçada, parece que quanto mais eu trabalho, mais sorte eu tenho.”
É isso.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Sorte

Considero que sou uma pessoa de sorte e com sorte. Minhas especialidades são sorteio e achar pessoas em situações improváveis.
Nos sorteios nunca ganhei grande coisa, neste quesito o mestre da família é meu irmão, que ganhou três carrões de uma só vez. Se você não conhece esta história, é sinal que nunca andou pela Rua Inglaterra, pois ele faz uma espécie de batismo com quem vai a casa dele, torturando as visitas com o DVD do Faustão falando que ele era o maior partido da cidade. Eu sou boa de ganhar prenda mesmo. Passei duas ressacas de carnaval em Salvador no wet´n wild, porque ganhei o sorteio no avião. Foram somente duas pessoas sorteadas com direito a convite de acompanhante e eu fui bicampeã. Mas nem sempre é bom ser boa de sorteio, pois também fui chamada várias vezes para responder a pergunta para a classe inteira. Teve uma vez que o sorteio era coisa boa, mas foi ruim. Eu estava num fretado USP – Unicamp, nunca tinha pegado aquele ônibus e nunca mais peguei. Eu era a única que tinha pagado a passagem avulsa, todos os outros eram mensalistas e faziam a viagem todos os dias. Formavam uma comunidade animadinha, afetuosos nos cumprimentos. Era véspera de páscoa e a dona da linha estava com um microfone na mão, contando entusiasmadíssima que daria uma cesta de chocolate ao número da poltrona que fosse sorteado. Na hora eu pensei: ferrou, vou ganhar essa droga e estragar a festa do pessoal. Não deu outra... Tive que aturar aplausos desencorajados e sorrisos amarelos e eu lá agradecendo com uma risadinha de Barbosa. Por total falta de jogo de cintura não consegui não aceitar e explicar que achava desproposital eu levar aquela cesta, então sai do ônibus carregando aquele bando de papel celofane sob olhares de incredibilidade.
Sobre a sorte de achar pessoas, eu comecei cedo, lá pelos quatro anos, quando perdi minha mãe no CIC – o estádio de futebol do São Bento. Era época de festas de fim de ano e anunciaram que o Balão Mágico estaria lá. Adorávamos a turma do Jairzinho e Simony. Eu até dormia com um Fofão. Fomos todos. Com o estádio lotado, meia dúzia de vigaristas inflaram um balão e este subiu pelo céu. Era isso o balão mágico!!! Eu devia estar entediada e saí dar umas bandas. Quando não consegui mais ver minha mãe procurei ajuda e quando o moço pediu referências eu expliquei: - Ela está de calça jeans. Mesmo não diminuindo significativamente a amostra a ser pesquisa com a minha informação, encontramos minha mãmi. Na viagem que mochilei por quase três meses na Europa tive muita sorte. Uma parte da viagem fiz sozinha e outra com uma amiga, a Elisa. De todos os encontros sortudos, o mais legal foi em Paris. Cheguei lá sozinha, no começo da noite do dia 1º de janeiro, estava tudo fechado. Pra piorar, os funcionários do metrô estavam em greve e a última informação que eu tinha sobre o albergue que queria ir era aquela estação. O lugar estava com pouco movimento e a única pessoa que tentou entender o que eu estava perguntando não me explicou por onde eu deveria ir, mas disse que era o caminho da casa dela e que seu a ajudasse com suas sacolas de compra, eu poderia segui-la. Não teria nada demais ajudá-la com aquelas dezenas de sacolas, não fosse eu estar com uma mochila de 14 quilos nas costas. Uma vaca, mas lá fui eu cheia de casacos, mochila nas costas e sacolinhas no braço, no pulso, na mão. Depois de um quarteirão nesta situação eu vejo dois moços vindo em minha direção e um deles era o Ricardo, irmão de uma amiga, que estava fazendo mestrado em Lyon. Na hora larguei tudo da dona vaca no chão e corri pro abraço, nem olhei para trás. O Ricardo tomou um susto com uma boneca de neve correndo em sua direção, ele só conseguiu me reconhecer quando eu já estava praticamente pulando em cima dele. Nem tínhamos muita intimidade, mas o cara é gente boa e entendeu os motivos da minha euforia. Depois ainda encontrei a pedrinha dele no Panthéon. Naquele mausoléu é tradição você assinar uma pedra com seu nome, cidade e data. Quando fui repousar a minha num cantinho não é que a dele estava lá! Mas isso é coincidência e não sorte. Sei que muitas pessoas apareceram na hora certa e me livrei de ciladas. Eu vejo hoje, que em várias situações meu juízo era inversamente proporcional a minha sorte.
Voltando às prendas, outro dia ganhei na academia uma profilaxia dentária no Ateliê Oral. Chique o lugar, tem até um Café Suplicy para os clientes. Na recepção me ofereceram de água a prosecco. Pode parecer simplesmente afetado, mas achei bem funcional uma biritinha para os casos de motorzinho. Saí de lá com uma nécessaire de mimos importados da Suíça e ainda um vale tratamento capilar no Studio W Iguatemi. Mais uma vez, o lugar era chique, com caras conhecidas de revista de fofoca e uma global ficou importunando a maçaneta enquanto eu estava no banheiro. Quando fui embora a sensação era que até meu cérebro estava massageado e meus cabelos planavam como a Cinderela no baile real. Minha decepção foi não ter ganhado nenhum vale. Estava contando que ali ganharia outro vale, outro, outro e mais outro, até chegar a novos e volumosos peitos de silicone. Puxa... O Eric iria gostar tanto.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dança do acasalamento

Mal comecei a publicar estes posts e já recebi um pedido. Senti-me importante e aqui estamos nós, meu amor...
Quem foi ao nosso casamento deve se lembrar do discurso do Eric. Foi lindo, terno e romântico. Me fez levitar. Ali ele contou sobre a primeira vez que me viu, num carnaval em Peruíbe e ficou todo encantado com “a irmã da Pink”. Quando ele contou a um amigo que não via há muito tempo que estava casado comigo o cara desacreditou, ele se lembrava do Eric falando de mim nesta ocasião. Eu sempre me remoí por não ter nenhuma lembrança muito específica deste encontro, mas há pouco tempo entendi. Ele tinha acabado de passar na faculdade e estava careca. Ah... isso explica tudo!
Como morávamos numa cidade de interior nos encontramos algumas vezes, sem nenhum episódio marcante. Sempre o achei um gato, mas esse sempre se remete a partir do cabelo dele na cabeça novamente.
Então, considero nosso primeiro encontro em Ilha Bela, no feriado da páscoa. Estava com amigos que são grandes amigos meu e dele. O Valsa, a Lu e a Rê. Também estavam a Dri e o Vini, estes mais meus amigos. Por acaso, ele estava na cidade e foi mergulhar com a gente. Era o batismo da galera, o Valsa era o instrutor e como éramos os únicos que já sabiamos mergulhar, formamos uma dupla. Enquanto o pessoal fazia os exercícios de praxe, saímos explorando. A minha sensação é que estava assistindo ao National Geographic, um episódio sobre a dança do acasalamento. Ele aproveitava a falta de gravidade para ficar de ponta cabeça e aproximar a sua máscara da minha. Cercava-me pela direita, depois pela esquerda. Apontava conchinhas, peixinhos, estalava em meu ouvido, dava mortal. Diverti-me secretamente, mas permaneci como uma difícil peixa blasé. Teve uma hora que ele não mais se segurou, pegou a minha mão e saímos flanando pela água turva da Ilha das Cabras. Foi só isso, mas já era muito, inclusive porque o safado tinha namorada!
Diz ele que eu não saia de sua cabeça. Passado alguns meses, resolvido o inconveniente da namorada e outros desencontros, começaram as mensagens, recadinhos e encontros entre amigos. Ele tinha um plano: “vou roubar esta mulher pra mim”. Eficiente o rapaz. Na páscoa seguinte estávamos namorando há dois meses e ganhei de presente uma cópia da chave do apê de Pinheiros. Eu também não tinha dúvidas que era ele o amor da minha vida, mas fui um pouco mais cautelosa e aceitei o convite dois meses mais tarde. O resto da história todo mundo sabe.
Hoje em dia, quando a casa está muito agitada, a Lolô e eu fechadas em alguma bagunça ou eu muito concentrada numa leitura, posso ver de rabo de olho um vistoso peixe rodopiando para mim. Seus passos ficam mais desengoçados, os ombros de aproximam das orelhas e o sorriso fica mole. Sem alarde abro espaço e ele se aninha. Seus instintos primitivos não precisam do retorno de uma só palavra minha para saberem, por experiência, quão eficiente é a sua dança.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Felicidade

Dia desses estava perplexa e irritada com a inconveniência de uma pessoa infeliz e patética que se dedicava a rastejar-se pelos muros das lamentações. Fiquei pensando no porquê da pessoa fazer questão de ser infeliz. Onde queria chegar fazendo da insatisfação sua eterna companhia e cultivando seus recalques com tamanho preciosismo? Era protagonista de um show fuleiro de melancolia e nostalgia.
Para mim, é tão natural me sentir satisfeita e feliz. Sigo meu caminho sem atrapalhar ninguém, cheia de amores e queridos, certa das minhas escolhas e uma paz que me faz respirar de forma leve. Neste sentido, sou uma pessoa fácil de conviver. Tenho vocação pra ser feliz. Não só eu, como meus irmãos, o Meme e a Pink.
Logo pensei no mérito da criação que minha mãe nos deu, que nos transformou em adultos de cabeças e corações tranqüilos. Ela nos criou com autonomia, para sermos independentes e críticos, com ótima auto estima, sempre elogiando quando realmente merecíamos. Seguimos seu exemplo e respeitar o próximo era sinal que tínhamos dignidade e valorizávamos a vida. Também fomos criados sem muito apego aos bens materiais e sem nenhum incentivo à competitividade, o que facilitou o enfrentamento de várias frustrações. Minha casa tinha vários problemas e a maioria deles atendia pelo nome e sobrenome de Juca Paes. Mas, não posso negar que era ele a nossa fonte de alegria, sem contar que nos enchia de carinho e assim, a balança pendia aos bons momentos. Crescemos sem grandes inseguranças e sem vergonha de nossa história. Somos pra frente. Somos resilientes. Quando tivemos triste, viramos o jogo e por ironia, contrariando a nossa mãe.
Toda essa indagação durou o trajeto à escola da minha filha, a Heloísa. Cheguei adiantada para buscá-la e fiquei esperando ao lado do parquinho vendo uma turminha de uns 4 anos brincar. Entre as crianças tinha uma menina bem fofinha, com um lado do corpo todo atrofiado. Ao ver seu braço encurtadinho e seus pequenos passos mancos, meus olhos se encheram de lágrimas e pensei: Sou feliz, simplesmente porque minha vida é muito boa! E segurei o choro...

Lombriga

Em Sorocaba sempre existiu uns loucos muito figuras. A mais célebre era a Alzira Sucuri. Além de muito feia, bem pior que o Tião Macalé, seus atributos eram distribuir palavrões impronunciáveis. Morria de medo de encontrá-la, principalmente se estava com meu pai, de quem ela dizia ser namorada. No fim de sua vida ela precisou de cadeira de rodas, meu pai e outros amigos freqüentadores do Sorocaba Clube, Círculo Italiano, da Lotérica Favorita, do estúdio do Teófilo Negão e do restaurante Sherepel fizeram uma vaquinha para deixá-la em melhor situação.
O louco que eu mais gostava era o Gilberto Comida, o magricelo era lombriguento e como num desenho do pica pau, ele tinha delírios ao ver as pessoas e as apelidava com nome de comida. Um mais gordinho era o pernil, a magra e alta era lingüiça, um ruivo era salsicha, um mulato feijão e por aí vai... Quando o encontrávamos na cidade ele nos contava que tinha sido liberado pelo hospício porque não davam conta de dar tanta comida a ele. Minha casa fazia parte do roteiro gastronômico do Gilberto Comida. Por causa de minhas sardas ele me chamava de arroz doce. A senhora negra e gorda que trabalhava em casa era feijoada.
Depois que eu virei tia ficou mais fácil entender o Gilberto. Quando vejo meus sobrinhos posso enxergar pequenos bombons tchoptchuras, de casca negra, brilhante e transpirante... Por dentro o mais nobre doce de leite. O estranho é quando chego bem perto sou eu quem derreto. Cuidado molecada, eu mordo!!

Memórias # 1

Acabei de ler uma crônica e fiquei pensando naquelas pessoas que passam rapidamente pela nossa vida, deixam boas lembranças e sssssxxxiup! Somem!
Lembrei do Luiz – não me lembro mais se era assim ou com S e acento. Estudamos somente no 1º ano da Unicamp. Ele era engenheiro, trabalhava para a Petrobrás, separado e morava com os filhos, que eram mais ou menos da idade que eu tinha na época. Ele fazia o curso à noite, somente como hobby. No 2º ano ele não apareceu mais, acho que ele não agüentou o ritmo, porque das disciplinas ele gostava.
Freqüentemente ele me dava carona, já que no 1º ano eu não tinha carro e além do trajeto da parada do ônibus até a casa onde eu morava não ser muito confiável, o vento do campus me matava. Acho que assim, ele se acostumou a cuidar de mim.
Saí de casa para fazer faculdade cedo, com 17 anos. Nos fins de semana que não voltava à Sorocaba sentia uma solidão desgraçada naquele tédio que fica uma cidade universitária. No meu caso não era bem uma cidade e sim um distrito: Barão Geraldo.
Foi num dia desses de solidão que descobri na porta de casa uma sacola cheia de mexericas com um singelo bilhete assinado PAI. A letra franzina não deixava dúvida sobre a autoria. Meus olhos sorriram o resto daquele domingo e fazem o mesmo ao me lembrar agora do Luiz. Por onde você anda Luiz? Queria tanto te contar que agora eu adoro os domingos...

Memórias # 2

O Luiz teve um namorico com a Rosa que durou somente as festas juninas daquele ano. Era a Rosa Amélia. Ela veio do interior do Piauí e me contava que ela e todos os seus vários irmãos conseguiram estudar no esquema do mais velho ajudando o mais novo e nunca mais precisaram retornar a cidade natal, a não ser para “ver mãe e pai”, proporcionando muito orgulho àquele casal sofrido em ver os filhos numa vida melhor. A casa que ela cresceu era de acabamento rústico, como diriam os demógrafos, mas não pense que isso é um estilo decorativo. Em outras palavras, a casa dela estava mais para a dos porquinhos Cícero e Heitor que para a do Prático.
A Rosa era miúda, mas ficava grande assim que começava a falar, daquele jeito nordestino de se impor com doçura e com opiniões fortemente calçadas na ética. E também tinha o sotaque, o vocabulário, os trejeitos minimalistas.
Sempre vibrei com as conquistas da Rosa, que por total miopia e sofrimento acumulado, tinha sua auto estima abalada. Quando ela defendeu sua dissertação de mestrado eu estava lá e vi como ela ficou feliz em me ver.
Fizemos a faculdade juntas e depois fomos pesquisar no NEPO, compartilhamos alguns congressos. Nunca fomos grudadas, mas nossos encontros sempre foram muito sinceros. No ano em que estávamos no NEPO ela me deixou um cartão de aniversário em minha mesa, fiquei tão engrandecida pelos elogios que recebi, que a certa altura eu vi a situação invertida, e estava eu me questionando: será que sou um blefe e enganei a Rosa???
As últimas três notícias que tive da Rosa, em ordem, foram: 1 – A casa que a Rosa mora pegou fogo. 2 – A Rosa foi morar na África, para acompanhar seu namorido que foi lecionar em uma universidade. 3 – A Rosa está na França, acho que no doutorado.
É Rosa Amélia, você que é mulher de verdade. Pena que seu e-mail não responde. Por onde você anda Rosa? O que tem para me surpreender e me fazer vibrar?

Memórias # 3

Tem também aquela pessoa que sempre fez parte de sua vida e sempre fará. Na minha é a Camila.
Já repetimos um milhão de vezes o dia que nos conhecemos, estávamos a duas casas da minha, na construção do que viria ser a casa dela. Tínhamos 4 anos. A partir dali compartilhamos brincadeiras e brinquedos. Se ela ganhava a piscina da Barbie, eu pedia a academia de ginástica. Ela tinha a cama, eu a escrivaninha.
A Camila era muito tímida e odiava ir a minha casa, que vivia cheia de amigos da minha irmã, sete anos mais velha. Eu vivia na casa dela e isso não é modo de expressão. Eu sempre fui espírito de porco nas brincadeiras e questionadora, uma espécie de Mafalda. A Camila era delicada nas brincadeiras e adorava as reportagens científicas do Fantástico. Em sua formatura, o pai dela contou aos convidados que a Biazinha era uma comunista aos 5 anos. Achei bem divertida a caracterização, já que foi nesta idade que eu parei de comer qualquer tipo de carne e comecei a panfletar sobre o vegetarianismo, inclusive para o dono do Big Frango, um açougue perto de casa, que íamos de patinete comprar toddynho, polenguinho e iô iô cream. A gente sempre foi muito diferente, apesar das duas terem pernas compridas e cabelos lisos, longos e brilhantes. Agora são curtos e o dela brilha bem mais.
Brincamos de Barbie, de lego, de pobre, de farmácia, de veterinária, de Xuxa, de banco, de vendedora de show do Menudo, de gato mia, de olimpíadas... Sempre na casa dela. Até que consegui arrastá-la para a rua e às minhas brincadeiras de moleque. Morávamos numa ladeira e a coitada se estropiou num skybunda com o skate. Aliás, ela sempre foi a autora dos tombos mais incríveis e engraçados do planeta!!
Foram os primos dela, um pouco mais velhos, que nos contaram de onde vinham os bebês, antes mesmo da minha mãe me dar aquele infame livro do cachorrinho montado na cachorrinha. Ficamos viciadas no master system e Califórnia dreams era nosso jogo predileto. Nessa época começaram as primeiras paqueras, namoricos e corações escritos na rua com pedaços de tijolo. Depois dos bailinhos, voltávamos chateadas, queríamos a atenção do mesmo menino, que malandro que era, agradava as duas. Mas nunca brigamos sério por isso, só brigamos mesmo uma vez, ainda mais novas e como nenhuma dava o braço a torcer, a mãe dela tratou de intervir e a paz voltou a reinar. Quando ela perdeu os dois dentes da frente ela chorava de raiva das minhas brincadeiras, mas mesmo assim, não ficamos longe um dia sequer.
Vieram as agendas cheias de recorte da capricho e o armário dela se tornou uma extensão do meu. Chegaram os namorados e lá aparecia a Camila chorando em casa. Agora a minha casa era o nosso QG. Quando víamos, já tínhamos esquecido o motivo do chororô e estávamos as duas cagando de rir, madrugada à dentro, a nossa especialidade desde a época do projeto “olho vivo”, que criamos aos 8. Dormíamos juntas na minha cama de casal e no dia seguinte a mãe dela ligava: - A Camila ta´í, Sonia? Manda ela vir já pra casa almoçar. A certa altura os pais já tinham desistido de nos separar, só ligavam no dia seguinte requisitando nossas presenças no lar de origem. Quando por algum motivo ou exigência retornávamos à casa de madrugada, as duas ficavam no meio da rua e quando a outra já estava perto do portão, gritávamos: CORRE! Era para fazer a segurança da outra, ou simplesmente não deixar a amiga passar medo sozinha.
Chegou a faculdade, fomos morar fora, fui fazer ciências sociais e a Camila medicina. Eu acalmei, minhas inquietações tomaram direção e buscaram alguma metodologia e a Camila ficou mais falante, mais perua, mais enérgica. Quando ela tem raiva – o que não é raro - ela tem RRRRRRRRAIVA, espuma. Eu acho histérico e dou risada.
Na minha pior fossa estava na casa de praia do namorado dela, hoje marido. A filha da puta me consolava e também ria, mas devia mesmo estar engraçado me ver naquele estado – histérica.
Ano passado tive uma baita crise de enxaqueca num fim de semana em Sorocaba. Ela não atendeu os telefones. Quando cheguei ao hospital era ela a médica de plantão. Quase a dei um beijo na boca de alegria! Não teria de explicar nada, ela conhece bem meu quadro! Ela ficou cuidando de mim. Da minha maca, enquanto meu marido me fazia carinho, eu observava ela cuidar também de uma senhorinha, com muita paciência e respeito. Achei tão bonito. Não tinha nenhuma sombra de tensão e irritabilidade, bem diferente de quando ela reclama da BOSTA de profissão que ela diz ter.
Daqui uma semana a Camila termina uma prova de fogo, 6 meses longe de seu “píncipe”. Ela é histericamente apaixonada por ele há mais de 10 anos, sente borboletas no estômago de deixar qualquer namoro de um mês com inveja. Ah... Sofreu a coitada com esta distância. É provável que agora eles se mudem para o Norte do país para que o Gustavo assuma seu posto na polícia federal. Ela quer ser mãe. Só quero que fique claro uma coisa, Camilinha: você não dá um passo sem mim!!

Memórias # 4

Praticamente todas as minhas férias da infância foram passadas em Peruíbe. Estava acostumada a ver meu pai de bermudão de elanca em tons de azul, com aquelas listras laterais branca e na frente o emblema de algum “time” de futebol que ele fundou. A bermuda abaixo da barriga de 9 meses de gestação e com o rego aparecendo era a única vestimenta. As costas largas sempre vermelha do sol o faziam parecer um lagostão, arrastando com suas pernas finas os chinelos Itapoan e mais tarde os Riders. Por baixo da bermuda usava um shorts-sunga preto para uma chuverada ou para um breve, bem breve mergulho no mar, mas quando o víamos molhado ele sempre garantia que tinha acabado de fazer o Atlântico a nado ou então, ter voltado da Ilha das Cobras. Posso fechar os olhos e vê-lo contando seus causos, piadas e mentiras em tom de discurso político com uma gargalhada no final. Sempre falante e mexendo com todo mundo, vivia cercado de pirilampos em torno daquela luz. Num concurso de carisma, certamente ele seria finalista.
O ponto oposto era meu tio, cunhado do meu pai. Suas elegantes bermudas em tons de cáqui deixavam seus magros joelhos à mostra e combinavam com os mocassins amarronzados. Outra possível combinação era da alpargata azul com a bermuda branca. A pólo por dentro, o cinto por fora. O relógio dourado e o leve cheiro de cigarro. Os cabelos, barba e bigode grisalhos não escondiam seu grande nariz adunco, revelando sua ascendência árabe, que ostentava com orgulho, assim como seu time, o Corinthians. A cabeça era proporcionalmente maior que seu corpo, com uma barriguinha de álcool se destacando.
Oitenta por cento do meu convívio com meu tio foi em Peruíbe, já que eles moravam em São Paulo, mas eu não tenho nenhuma lembrança do meu tio de sunga, acho que nem sem camisa. Ele era um homem de cara amarrada, com poucos amigos. Preferia ficar em casa lendo e fazendo palavras cruzadas ao invés de ir à praia. Freqüentemente eu era sua principal interlocutora, ele nas palavras cruzadas e eu colorindo, em nosso silêncio.
Ele me chamava de “sobrinha predileta” e era a mais pura verdade, assim como ele sempre foi o número um para mim. Eu dava a ele muita atenção e para mim ele só tinha palavras divertidas e de elogio, seguidas de um “ôrra meu”, abrindo um braço na direção do ombro e outro para cima. Nesta hora, seu sorriso se abria para mim. Foi dele que ganhei meu primeiro soutien, era verde água.
Dei muita sorte, porque meu primo tinha minha idade, éramos os caçulas. A meu ver ele era o queridinho do papai e assim usufrui programas muito legais! Meu tio nos levava até as cachoeiras do Paraíso para brincarmos, ou até o Guaraú somente para a gente ver uma praia mais bonita. Teve uma vez que rolou um vôo de helicóptero sobre a Juréia, eu declinei, nunca gostei de altura, nem de voar, mas eles foram. No centrinho de Peruíbe valia feirinha hippie, fliperama, parque de diversões, sorvete e milho verde, muito milho verde nos trailers da orla.
Se o assunto era refeição, não havia exceção, íamos para o Bóia, ele era amigão do dono. Eu me dava mal, era uma casa de peixes, mas sempre tem uma batata frita para salvar a pátria e eu nunca, nunca reclamei das opções que tinham para mim, afinal quem era cheia de restrição alimentar era eu e não o cardápio. Falando em peixe, teve uma vez que ele levou meu primo e eu para pescarmos caranguejo na ponte, com uma espécie de gaiolinha. No caminho de volta me liguei que a brincadeira de caçar os cascudos teria conseqüência e logo me arrependi. Assim que chegamos em casa corri para a praia para libertar os bichinhos antes que eles virassem entradas. Meu tio não conseguia entender...
No carnaval nos levou ver o desfile, tinha a Barão de Mauá, nas cores de azul e prata e uma outra escola vermelha. Ele falou que nós éramos do azul, então não havia dúvida, os azuis foram bem mais bonitos. Na volta, ele já cachaçado dirigiu comigo e meu primo no bagageiro, meu pai ficou uma arara e eu tive medo de ter nossos passeios proibidos.
O melhor dos nossos programas aconteceu por acaso. Meu primo, mimado que era estava emburrado porque queria comprar ou comer algo que meu tio não deixou. Por instrução do meu tio, deixamos o gordinho encostado no carro com os braços cruzados e fomos sentar na areia da praia. Encostados em uma grande pedra ele me convidou para descobrir as formas que as nuvens poderiam ter. Ali ficamos só nós dois, eu encantada com a novidade e o ápice foi quando ao meio de tantas nuvens que só se pareciam com pipoca eu achei o Snoopy!!
O sonho do meu tio era passar a velhice em Peruíbe. Infelizmente a velhice não chegou para ele, mas meus primos improvisaram e deixaram suas cinzas naquele mar, bem em frente ao Bóia. Mas, não é no mar que vejo meu tio e sim quando vejo formas no céu.
Obrigada, tio.