quinta-feira, 10 de junho de 2010

Memórias # 3

Tem também aquela pessoa que sempre fez parte de sua vida e sempre fará. Na minha é a Camila.
Já repetimos um milhão de vezes o dia que nos conhecemos, estávamos a duas casas da minha, na construção do que viria ser a casa dela. Tínhamos 4 anos. A partir dali compartilhamos brincadeiras e brinquedos. Se ela ganhava a piscina da Barbie, eu pedia a academia de ginástica. Ela tinha a cama, eu a escrivaninha.
A Camila era muito tímida e odiava ir a minha casa, que vivia cheia de amigos da minha irmã, sete anos mais velha. Eu vivia na casa dela e isso não é modo de expressão. Eu sempre fui espírito de porco nas brincadeiras e questionadora, uma espécie de Mafalda. A Camila era delicada nas brincadeiras e adorava as reportagens científicas do Fantástico. Em sua formatura, o pai dela contou aos convidados que a Biazinha era uma comunista aos 5 anos. Achei bem divertida a caracterização, já que foi nesta idade que eu parei de comer qualquer tipo de carne e comecei a panfletar sobre o vegetarianismo, inclusive para o dono do Big Frango, um açougue perto de casa, que íamos de patinete comprar toddynho, polenguinho e iô iô cream. A gente sempre foi muito diferente, apesar das duas terem pernas compridas e cabelos lisos, longos e brilhantes. Agora são curtos e o dela brilha bem mais.
Brincamos de Barbie, de lego, de pobre, de farmácia, de veterinária, de Xuxa, de banco, de vendedora de show do Menudo, de gato mia, de olimpíadas... Sempre na casa dela. Até que consegui arrastá-la para a rua e às minhas brincadeiras de moleque. Morávamos numa ladeira e a coitada se estropiou num skybunda com o skate. Aliás, ela sempre foi a autora dos tombos mais incríveis e engraçados do planeta!!
Foram os primos dela, um pouco mais velhos, que nos contaram de onde vinham os bebês, antes mesmo da minha mãe me dar aquele infame livro do cachorrinho montado na cachorrinha. Ficamos viciadas no master system e Califórnia dreams era nosso jogo predileto. Nessa época começaram as primeiras paqueras, namoricos e corações escritos na rua com pedaços de tijolo. Depois dos bailinhos, voltávamos chateadas, queríamos a atenção do mesmo menino, que malandro que era, agradava as duas. Mas nunca brigamos sério por isso, só brigamos mesmo uma vez, ainda mais novas e como nenhuma dava o braço a torcer, a mãe dela tratou de intervir e a paz voltou a reinar. Quando ela perdeu os dois dentes da frente ela chorava de raiva das minhas brincadeiras, mas mesmo assim, não ficamos longe um dia sequer.
Vieram as agendas cheias de recorte da capricho e o armário dela se tornou uma extensão do meu. Chegaram os namorados e lá aparecia a Camila chorando em casa. Agora a minha casa era o nosso QG. Quando víamos, já tínhamos esquecido o motivo do chororô e estávamos as duas cagando de rir, madrugada à dentro, a nossa especialidade desde a época do projeto “olho vivo”, que criamos aos 8. Dormíamos juntas na minha cama de casal e no dia seguinte a mãe dela ligava: - A Camila ta´í, Sonia? Manda ela vir já pra casa almoçar. A certa altura os pais já tinham desistido de nos separar, só ligavam no dia seguinte requisitando nossas presenças no lar de origem. Quando por algum motivo ou exigência retornávamos à casa de madrugada, as duas ficavam no meio da rua e quando a outra já estava perto do portão, gritávamos: CORRE! Era para fazer a segurança da outra, ou simplesmente não deixar a amiga passar medo sozinha.
Chegou a faculdade, fomos morar fora, fui fazer ciências sociais e a Camila medicina. Eu acalmei, minhas inquietações tomaram direção e buscaram alguma metodologia e a Camila ficou mais falante, mais perua, mais enérgica. Quando ela tem raiva – o que não é raro - ela tem RRRRRRRRAIVA, espuma. Eu acho histérico e dou risada.
Na minha pior fossa estava na casa de praia do namorado dela, hoje marido. A filha da puta me consolava e também ria, mas devia mesmo estar engraçado me ver naquele estado – histérica.
Ano passado tive uma baita crise de enxaqueca num fim de semana em Sorocaba. Ela não atendeu os telefones. Quando cheguei ao hospital era ela a médica de plantão. Quase a dei um beijo na boca de alegria! Não teria de explicar nada, ela conhece bem meu quadro! Ela ficou cuidando de mim. Da minha maca, enquanto meu marido me fazia carinho, eu observava ela cuidar também de uma senhorinha, com muita paciência e respeito. Achei tão bonito. Não tinha nenhuma sombra de tensão e irritabilidade, bem diferente de quando ela reclama da BOSTA de profissão que ela diz ter.
Daqui uma semana a Camila termina uma prova de fogo, 6 meses longe de seu “píncipe”. Ela é histericamente apaixonada por ele há mais de 10 anos, sente borboletas no estômago de deixar qualquer namoro de um mês com inveja. Ah... Sofreu a coitada com esta distância. É provável que agora eles se mudem para o Norte do país para que o Gustavo assuma seu posto na polícia federal. Ela quer ser mãe. Só quero que fique claro uma coisa, Camilinha: você não dá um passo sem mim!!

2 comentários:

  1. Biazinha, amei! Eu ja tinha ouvido algumas dessas historias, mas lendo por aqui ficou tao emocionante! Me peguei enxugando as lagrimas.... Beijao, Fabi

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  2. Encontrei nas suas palavras um ótimo motivo para ficar feliz com essa gripe que me fez desmarcar meus pacientes da tarde. Assim, além de já ter podido ler esse post por três vezes (como uma boa histérica!!!), agora vou lê-lo em alto e bom som, com a mão do lado esquerdo do peito, para minha mãe e minha avó.
    Obrigada por ter feito meus dias tão felizes, inclusive o de hoje!
    Amo muito você!!
    Bjo no seu coração.
    Camilinga

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