domingo, 9 de dezembro de 2012

5 quilos de paixão


Ah a paixão... esse estado do amor  tão almejado em filmes de sessão da tarde... e você se dá conta que está entregue à paixão... por 5 kg de gente. E assim, como o peito que se enche de leite, que se repete e repete e mesmo assim não deixa de surpreender, do nada, em uma visão, você sente o peito se transbordar em amor. Como é bom amar e como é terno e intenso esse sentimento cheirando à amêndoa. Ter um bebê em casa significa se apaixonar T-O-D-O-S os dias.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Palavras, pra que te quero?


Às vezes as palavras somem e não são só do papel, elas simplesmente não se articulam. Isso acontece comigo quando algo intenso acontece, pode ser sofrimento ou satisfação. Agora vivo assim, sem nada muito importante passar pela cabeça, sem muita inspiração para puxar assunto. Os dias estão muito mais interessantes que as palavras. As noites também. Bem mais. O único porém é a experiência. Esse freio de mão puxado que não me deixa erguer os braços para curtir o vento bom que vem de encontro. Pode ser dor guardada, aquela que terei que conviver para sempre. Mas, com a minha dor eu me entendo, é o que sobrou do meu relacionamento com meu pai no presente, então, a cultivo com amor, por mais estranho que isso pareça ser. Pode ser constrangimento pelo sofrimento alheio, tão espalhado nesse mundo cão. E também o cagaço de algo ruim acontecer e estragar minha boa vida. Acho que vou parar de ler o jornal, acho que é ele, culpa dele. Das palavras escritas nele. Não quero saber que a Europa vai ter um ano mais difícil na economia. Nem que o vírus transmutado na gripe aviária pode dizimar 1/3 da população. Por mim, que a corregedoria e os magistrados se matem. Quero que vá para puta que o pariu esses gestores com a política higienista da cracolândia e desejo não descobrir que nenhuma criança morreu no acidente do navio na Itália. Aliás, desejo que crianças nasçam, sejam saudáveis e amadas. E que os homens gostem menos de dinheiro e mais das pessoas. E que os animais não paguem o pato. As notícias continuarão horríveis, à despeito dos meus desejos, eu sei. Mas, se eu não tomar conhecimento, quem sabe então poderei exacerbar meu momento sem medo, nem constrangimento. Só os ignorantes são felizes? Ahã. Sim.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Alô, alô marciano


- Oi Pá, tudo bem?
...
- Tudo ótimo, e vc como está?
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- Hum, que bom. E as novidades?
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- Por aqui tudo ótimo.
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- Tá bem sim, ela tá uma moça pai, criança cresce rápido demais mesmo. Ela não chupa mais chupeta há mais de um ano e raramente faz xixi na cama, acredita? Continua toda carinhosa e falante, uma peça. Mas tá uma moleca, viu? Vive se machucando, com joelho ralado e perna roxa.
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- É verdade, ela conhece, mas faz tempo que não conto história do Macaco Chico. Nas que você me contava ele sempre subia mais que podia e se machucava, lembra? Não esqueço a que ele quebrou o braço e foi pro hospital. Acho que ela tem a quem puxar em ser tão arteira né?
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- Tá, tá sim, adorando a escola nova, tem tantos amigos, pai. Ela é toda popular, brinca super bem com as meninas e com os meninos, sempre tem amiguinho dela aqui em casa.
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- Ah, lógico, né? Tem uns três gaviõezinhos. Ela gosta mais do Rafa, mas o Zepe é forte concorrente, é uma criançada muito fofa...
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- Pode deixar vou falar que eles vão levar um tapão, rs... Quem vê pensa, né?
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- Ah sim, eu conheço o tamanho do muque...
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- Ela começou a fazer ballet.
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- Ôh! Vai deixar Ana Botafogo no chinelo mesmo, ahahaha. Mas ela leva muito jeito, pai.
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- Só se puxou a Pink, né? Eu sempre fui só da bagunça.
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- Ela sempre fala de você, ela te adora, pai. Fico super emocionada. Direto ela mostra a letra J de Jujuca e quando o assunto é céu e estrela você sempre aparece. Ela fala que você vai nascer de novo, não sei se minha sogra falou alguma coisa do gênero, mas ela fala... Recebeu o presente dela?
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- Foi assim: ela ganhou o balão de hélio numa festinha e quando falei que se ela soltasse ele voaria até o céu, na hora ela quis escrever um recado e te mandar. Estava escrito dentro do coração: “Para Jujuca, da Lolô. Foi a Lolô quem deu. Um beijo, Lolô.” Acho que ficou claro quem te mandou, né? Kkkk. O céu de São Paulo para variar estava cinza e ficamos vendo ele ir embora pelo céu, foi bonito.
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- Ericão tá ótimo. Agora está todo empolgado comprando um carro novo.
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- Ah, igual criança em loja de brinquedo.
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- Tá tudo tranqüilo lá na agência. Lembra quando o Washington entrou e ele tava preocupado? Você tava certo, ele adorou o Eric.
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- Ele voltou a trabalhar esta semana, estávamos de férias. Eu estou ferrada, não tiro férias, né? Tem estas desvantagens em ser consultora. Estou com vários projetos da Vale, acumulou tudo e agora estou virando as noites para entregar os relatórios, mas tudo bem, tô acostumada.
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- Eu sei, pai. Mas, é a hora que o trabalho rende, durante o dia fico na correria da casa e da Lolô. E isso é bom, vale a pena. No mais, como diria o Vô Paes, sou corujona.
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- A gente foi pra Itália, lembra que te falei? Planejamos esta viagem há um tempão.
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- A Lolô ficou com a Cleide e Roberto aqui em casa, se viraram super bem. Deixei tudo planejado e os dois não tem nem o que falar, fazem de tudo para ela. A gente se falava todo dia pela internet, com a filmadora do computador, então ajudava. Ela tava amuadinha, mas segurou a onda, foi super valente.
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- Sim, adorei Roma. Milão também. Mas Veneza me surpreendeu muito.
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- Opa! Andamos de gôndola, trouxemos máscara para Heloísa, tudo o que tinha direito!
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- Ah, pai e o que se come e bebe por lá? Qualquer esquina que você para a massa é deliciosa e o vinho da casa de primeira.
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- Fique trankilo... aprenderam tudo direitinho com você, capitão.
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- Úh! Parlei muito o meu super italiano, não tem jeito, sou Bonetti de araque.
- Pai. Lembrei tanto de você no Vaticano. Primeiro sabia que você iria falar se o papa perguntou de você...
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- Ahaha, lógico que perguntou, mandei lembranças...
- Lembrei de como você falava da energia que era estar próximo do João Paulo II. Você disse que só de vê-lo passando ficou arrepiado. E eu posso imaginar.
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- Ele tinha mesmo carisma. Como você diz, criatura espetacular.
- Mas então, pai... lá na Basílica de São Pedro entrei numa capela para rezar. Foi uma experiência incrível. A energia daquele lugar era enorme, uma capela pequeninha, só para quem quer rezar, sem turismo. Me ajoelhei e comecei a chorar, foi tão forte, foi único e inesquecível. Queria muito te contar que rezei por você lá no Vaticano, pai. Foi marcante, chegou a ser um choro gostoso, sabe?
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- Deve ter muitas realmente muitas coisas que eu nem imagino.
- Voltando a falar em viagem, lembrei tanto de você em Recife.
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- É mesmo, uma beleza Boa Viagem.
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- De bocó você não tem nada, ainda mais sendo tratado como rei por lá.
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- Eu sei, o título de 78 do Sport, né?
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- O Meme que sabe estas coisas, eu me confundo. Fiquei com vontade de conhecer o Jarbas e o Paulo, quase peguei a lista telefônica para ligar para eles, mas desisti.
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- Eu sei que podia, mas faltou coragem. Ah, pai, lembrei muito de você, assim que coloquei o pé na orla de Boa Viagem, ao anoitecer, vi um grupo de senhores conversando e bem ao seu estilo, com gestos e discutindo sobre “o melhor do planeta”. Acho que falavam sobre o prefeito, mas o assunto futebol certamente iria chegar. Um deles era mais alto, de cabelo branco, roupas que você usaria, parecia que eu estava te vendo. Aliás, te “vejo” em vários senhores.
- Seus amigos estão indo também, né? Fiquei emocionada com a partida do Vitor. Eu nem tive muito contato com ele, mas lembro da reverência com que você o tratava, parecia que você o respeitava como um pai, então me emocionou. E o Zezo, não? O filho da mãe ganhou mesmo a aposta! Está lá, conservado no álcool.
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- Sim. Mamãe tá boa, animada com o apartamentinho dela que está ficando pronto.
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- Sim, merece, é muita trabalhadora mesmo.
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- A casa vai ficar lá por enquanto, ainda sem planos.
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- Ela fez uma festa no aniversário dela, veio Tio Beto, Tia Miriam e um pessoal de Votuporanga. Falaram de você, lógico. Teve um que esqueci o nome que fez graça me perguntando por que você não veio quando chegou nossa família, mas não consegui nem ficar brava, porque sabia que você iria rir da piada se estivesse lá.
- Ah! Outro dia a Tia Leide e a Tia Luiza vieram aqui em casa, fizeram almoço árabe. É um crime o que aquelas duas cozinhas, não?
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- Sim... tinha coalhada, esfiha, kibe, abobrinha recheada, charutinho, hommus, tudo o que você imagina. E eu comprei uma mijadra que elas adoraram.
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- Do misk, aqui do lado.
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- Tava tudo uma delícia, adoraram o apartamento que elas ainda não conheciam. Tia Luiza nos trouxe presente, tava toda atacada dançando com o Rafa da Vã. E a Lolô e Analu brincam muito bonitinhas.
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- Se dão super bem. Outro dia a Lolô até dormiu na Vã para ficar com a Analu e os meninos.
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- Pois é... vira lata. Chorou quando acordou de manhã, mas a Vã acudiu e deu tudo certo.
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- Pai? A Tia Leide vendeu o apartamento de Peruíbe.
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- É, está certo, mas quantas lembranças daquele lugar, né? Acho que lá estão as lembranças mais felizes... da família toda reunida, numa convivência intensa em 50 m². Era muito caótico e engraçado, parecia um filme do Fellini.
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- Ela quer ficar em Santos com a Tia Luiza.
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- Pois é. Gigi e Gijóca não se desgrudam por nada. Mas, elas sempre choram quando falam de você.
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- Regadeira nada, elas sentem muito a sua falta.
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- E nós não somos diferentes, seu pai ensinou direitinho e vocês ensinaram a gente, espero saber fazer o mesmo com os meus ou as minhas. Aliás, a Pink e o Meme sempre me contam quando te vêem. Eu até que sonho também, mas quando acordo esqueço quase tudo, mas mesmo assim fica a sensação boa da sua presença. Geralmente você está mais novo, bem bonitão.
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- Galã, claro!
- Você continua muito presente na nossa vida e nunca vai deixar de ser. Ninguém esquece suas histórias e seu modus operandi, vira e mexe estamos falando em como seria sua reação, seu comentário, sua piada.
- Acho que pelo silêncio está na hora de dizer tchau, né? Não quero ficar falando da minha saudade, do que sinto falta, nem te deixar triste. Muito bom te escutar e ouvir sua voz. Me liga qualquer dia? Sinto muita falta de pegar o telefone e escutar: “Bicóca?”
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- 5:17 h? Claro!
...
- Eu espero, sim. Lógico que não estou com pressa, rs... Fica bem e se cuida. Estou sempre com você. Te amo. Um beijão, pai.

Desejo

Não fui criada numa família machista, diante da nossa realidade cultural, acho que posso falar até em feminismo. Minha avó materna foi criada em colégio interno,destes bem tradicionais, lá em Itú. De lá guardou alguns dos muitos pontos de bordado que aprendeu, rancor profundo da mãe que deixou de buscar as irmãs e ela numas férias e pavor da Igreja Católica. Foi fazer faculdade de educação física na USP. Conheceu meu avô, filho único de uma portuguesa possessiva, resolveram a questão viajando e aparecendo casados. Em Votuporanga não tinha quem não a conhecesse, não só por ser bonita, uma Patrícia Pillar em novela de época, mas por levar handball à cidade. Já que não havia televisão, assistir aos torneios era um grande evento. Ela viveu muito bem com o marido, mas por pouco tempo, ele ficou doente muito cedo, conto em outra hora, fato é que minha avó possuía um padrão atípico para a época, estudando, prestando concursos, trabalhando, cuidando do marido e da casa. Ela era cheia de atitude. E tinha preferência pelas meninas, não dava a menor bola para os netos, só para as netas. Isso trouxe conseqüência direta para mim, não por ser tratada com carinho, mas porque minha mãe guarda um certo desprezo pela figura masculina, os considera carente demais, espertos de menos, facilmente manipulados, sem equilíbrio entre o grudento e desgarrado e tive que me esforçar para não achar os homens desinteressantes, pois sob suas observações ela quase sempre tem razão. As mulheres melhoraram com o tempo, podem não ter o charme do grisalho, mas ficam vistosas, falam o que pensam, tem energia. O homem desde que deixa de ser menino tem uma má vontade e vocação para listar empecilhos que é de dar preguiça. Aquele papo de depilação X barba, ginecologista X próstata, menstruar X ser mãe, acho tudo bobagem, dos homens eu invejo mesmo é o futebol. Acho genial a combinação de esporte com cerveja. Não há similar para as mulheres. Tem até futebol para as mulheres, mas não é a mesma coisa, não mesmo. Mulher não pode xingar, avacalhar, chutar o calo, porque daí magoa... e nem beber muita cerveja, porque dá barriga, celulite e aí já viu, não vão querer ganhar imediatamente todas as calorias perdidas e o papo da roda vai ser sobre cremes e tratamentos, não dá. Já que é assim é melhor ir direto pro bar e falar baixaria. Desencana do futebol feminino.
Futebol é o que eu invejo e o que admiro é a capacidade obtusa da maioria dos homens de se relacionar com o sexo oposto. Não estou falando de cafajestes e biscas, mas de pessoas bacanas e esclarecidas. Ex para eles é uma coisa que fica esquecida lá atrás, nem o telefone guardam, se deixou de ser já era. O tal jogo entre os sexos é bem simplificado, se as mulheres estão simpáticas demais querem dar, se os tratam como amigas é porque é amiga mesmo. Irão certificar as intenções da simpática, mas não tendem a ficar bravos se erraram na percepção e, se um dia a amiga tiver facinha e der a dica, porque não? É só fazer uma piadinha no dia seguinte e está tudo certo. E acredito que mesmo um homem solteiro não vai iniciar uma graça com uma mulher comprometida, afinal a preguiça fala mais alto, eles não são movidos a desafio, mas ao que está mais fácil. Já as mulheres fantasiam demais e aaaai como me incomodam as que não sabem ficar em seus espaços sem furar a bolha. Tem ex que quer ser tombada como patrimônio histórico, com reserva de turma, amigos, sogra... Nunca esquece o aniversário de ninguém, que na tecla SAP quer dizer “por tudo que é mais sagrado, não esqueçam da minha existência”. Mas, se precisa usar do velho truque do parabéns, é tarde, já está esquecida, aliás, pensa bem, que bom que está esquecida, fim de namoro sempre vem com algum bafão que é bom esquecer, borá pra oura, vamo, vamo. E tem também as amigas-simpáticas do dia a dia, sempre prontas para os elogios, palavras positivas, lindas de legal, prontas para por o bofe pra cima e entre miúdas linhas dar a dica. Mas eu tenho um desejo para todas estas lindas: meu desejo é que para cada bizoiáda pra cima do meu marido tenha cinco vacas na cola do homem delas. Amém.

Queridinha do papai

Todo mundo sabe o grude que existe entre filhos e pais de sexo oposto. Freud já explicou, não vou ser repetitiva. Eu tenho a impressão que não saberei como é ser mãe de menino, só imagino uma irmã para minha filha, então, falo pela minha experiência de filha e não de mãe.
Toda menina é a queridinha do papai. É a garota esperta, cheia de personalidade, a malandrinha que tem as melhores tiradas, a que é rápida nas repostas, queixo duro, a companheira de TV, além de ser um poço de beleza. Ao olhar do pai, só há aprovação, pode ter até alguma provocação, mas só para dar a chance da pequena provar a sua astúcia e o papai poder bater palma, orgulhoso do revés que ele mesmo procurou. Eu sou a caçula da minha mãe, mas não do meu pai, e nem por isso ele deixou de me apresentar como “a minha caXulinha”, eu sempre me senti assim também, não fazia questão de corrigir, já que ser a mais nova potencializava a sensação de queridinha. Não era raro a apresentação ser acompanhada de sua grande e linda mão envolvendo meu queixo com pequenos chacoalhos, olhando bem para mim e dizendo “eXa feioJa aqui, minha braveJa”. Eles sempre falou assim com os filhos na hora do reencontro, como se fossemos crianças e ele tensionando seu próprio maxilar, trocando consoantes por Xs e Js, com direito a apelidos consagrados e muito carinho. Essa sensação de ser a pequena princesa do papai é deliciosa, o reino é encantado, o rei tem o poder supremo e zela por ti, o mal está para fora dos muros e não há espelho que diga que existe no mundo alguém mais interessante que você. Sentirei saudade eterna desta minha posição, pois o meu tempo de princesa chegou ao fim, o rei se foi e meu castelinho que me cercava ficou na lembrança.
Infelizmente, tem gente que não se liga que não é possível extrapolar esta condição singular entre pai e filha para o universo. Para piorar a situação, é na adolescência que as meninas fazem sucesso entre os meninos. Elas ainda não sabem de nada, estão muito despreparadas e se achar a última bolacha do pacote é erro previsível e pode ser fatal. Lembro do “sucesso” que causei ao entrar na adolescência, meu irmão bufando de ciúmes, elogios por todos os lados, meninos mais velhos me rondando, algumas meninas com inveja e a vida se abrindo como um filme teen de seção da tarde. Devo ter ficado insuportável, mas durou pouco. Meu irmão fez o trabalho sujo e dedurava cada passo meu, até o que eu não dava. Minha irmã me mostrava como era feio ser vulgar e querer parecer mais velha do que eu era. Meu pai gritava BIIIIAA e eu corria mancinha de volta ao meu lugar de caçulinha. Já o pulo do gato foi a minha mãe quem me ensinou, antes mesmo que eu saísse batendo a cabeça acreditando em ilusões, foi ela quem percebeu onde eu estava indo e me explicou que sempre tem alguém mais bonita que você, mais inteligente, mais engraçada, mais tudo, que aquela sensação de ser a melhor era uma viagem e querer ser um sucesso incorreria no velho truque de alimentar a imaginação dos meninos para que todos babem por você. Saquei e abominei. Lá pelos meus 14 anos finquei pé na realidade, não tinha a menor pretensão de ser o sol ou umbigo de lugar nenhum, não procurei nenhuma bolha para habitar e meu entendimento sobre ser especial passou a ter um recorte bem preciso e direcionado a quem eu realmente gostava e me importava, assim, seríamos especiais uns aos outros. Ponto. Peguei pavor das meninas que faziam joguinho para ser a tal, percebi a leviandade, o excesso de ego e a falta de valor. Mas isso não é o pior, isso é só um julgamento meu. Triste mesmo é assistir hoje mulheres que foram adolescentes que cresceram acreditando ser a supra sumo da família, da escola, da rua, da praia, do clube, da boatinha, daquele mundinho tão pequeno que um dia acreditaram ser o mundo todo. O que sobrou a elas foi um vazio terrível... o sucesso passou, não são mais assunto, mas travam uma luta desesperada para não serem esquecidas de vez. Para piorar, o tempo muitas vezes é cruel mesmo e leva os atributos de outrora embora. Todo aquele pseudo futuro brilhante de diva não vingou e aí ficou o quê? Viver da época boa que passou... Ôh judieira... tanto para viver aqui e agora e a pessoa presa lá atrás... A queridinha iludida não aprendeu a se gostar, por todo o tempo só buscou o amor dos outros, acreditando que precisava responder à expectativa de toda sua legião, assim como fazia com seu papai. As adolescentes tardias passam a viver do passado, pois precisam voltar ao tempo que se sentiam adoradas para se gostar, porque não aprendeu a fazer isso por conta, não conseguiu se enxergar sem os olhos de fã do papai e assim, se comportam como uma eterna ex-miss, que não conseguiu fazer mais nada divertido da vida. Para piorar, muitas delas continuam se iludindo mais e mais, aderindo a sessões que beiram o masoquismo físico e psicológico, achando que podem resgatar a beleza daqueles tempos de queridinha de sua bolha e assim voltarem a reinar, se acabando nas academias, salões e clínicas. Coxas torneadas, silicones, luzes, roupas e poses. E o João de todo dia ali do lado, mas mal a nota, deprê mesmo. Até agora não perceberam que estão atrás do que não importa.
Sei que ser a queridinha do papai é bom demais, desde que você perceba que cada pai tem a sua queridinha, e às vezes mais de uma. Eu perdi meu rei e meu castelinho de proteção, mas, graças à minha mãe, não perdi meu trono e meu lugar no mundo, pois lá atrás decidi que este era só meu, conquistado por mim, ninguém me deu e ninguém me tira.