quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Queridinha do papai

Todo mundo sabe o grude que existe entre filhos e pais de sexo oposto. Freud já explicou, não vou ser repetitiva. Eu tenho a impressão que não saberei como é ser mãe de menino, só imagino uma irmã para minha filha, então, falo pela minha experiência de filha e não de mãe.
Toda menina é a queridinha do papai. É a garota esperta, cheia de personalidade, a malandrinha que tem as melhores tiradas, a que é rápida nas repostas, queixo duro, a companheira de TV, além de ser um poço de beleza. Ao olhar do pai, só há aprovação, pode ter até alguma provocação, mas só para dar a chance da pequena provar a sua astúcia e o papai poder bater palma, orgulhoso do revés que ele mesmo procurou. Eu sou a caçula da minha mãe, mas não do meu pai, e nem por isso ele deixou de me apresentar como “a minha caXulinha”, eu sempre me senti assim também, não fazia questão de corrigir, já que ser a mais nova potencializava a sensação de queridinha. Não era raro a apresentação ser acompanhada de sua grande e linda mão envolvendo meu queixo com pequenos chacoalhos, olhando bem para mim e dizendo “eXa feioJa aqui, minha braveJa”. Eles sempre falou assim com os filhos na hora do reencontro, como se fossemos crianças e ele tensionando seu próprio maxilar, trocando consoantes por Xs e Js, com direito a apelidos consagrados e muito carinho. Essa sensação de ser a pequena princesa do papai é deliciosa, o reino é encantado, o rei tem o poder supremo e zela por ti, o mal está para fora dos muros e não há espelho que diga que existe no mundo alguém mais interessante que você. Sentirei saudade eterna desta minha posição, pois o meu tempo de princesa chegou ao fim, o rei se foi e meu castelinho que me cercava ficou na lembrança.
Infelizmente, tem gente que não se liga que não é possível extrapolar esta condição singular entre pai e filha para o universo. Para piorar a situação, é na adolescência que as meninas fazem sucesso entre os meninos. Elas ainda não sabem de nada, estão muito despreparadas e se achar a última bolacha do pacote é erro previsível e pode ser fatal. Lembro do “sucesso” que causei ao entrar na adolescência, meu irmão bufando de ciúmes, elogios por todos os lados, meninos mais velhos me rondando, algumas meninas com inveja e a vida se abrindo como um filme teen de seção da tarde. Devo ter ficado insuportável, mas durou pouco. Meu irmão fez o trabalho sujo e dedurava cada passo meu, até o que eu não dava. Minha irmã me mostrava como era feio ser vulgar e querer parecer mais velha do que eu era. Meu pai gritava BIIIIAA e eu corria mancinha de volta ao meu lugar de caçulinha. Já o pulo do gato foi a minha mãe quem me ensinou, antes mesmo que eu saísse batendo a cabeça acreditando em ilusões, foi ela quem percebeu onde eu estava indo e me explicou que sempre tem alguém mais bonita que você, mais inteligente, mais engraçada, mais tudo, que aquela sensação de ser a melhor era uma viagem e querer ser um sucesso incorreria no velho truque de alimentar a imaginação dos meninos para que todos babem por você. Saquei e abominei. Lá pelos meus 14 anos finquei pé na realidade, não tinha a menor pretensão de ser o sol ou umbigo de lugar nenhum, não procurei nenhuma bolha para habitar e meu entendimento sobre ser especial passou a ter um recorte bem preciso e direcionado a quem eu realmente gostava e me importava, assim, seríamos especiais uns aos outros. Ponto. Peguei pavor das meninas que faziam joguinho para ser a tal, percebi a leviandade, o excesso de ego e a falta de valor. Mas isso não é o pior, isso é só um julgamento meu. Triste mesmo é assistir hoje mulheres que foram adolescentes que cresceram acreditando ser a supra sumo da família, da escola, da rua, da praia, do clube, da boatinha, daquele mundinho tão pequeno que um dia acreditaram ser o mundo todo. O que sobrou a elas foi um vazio terrível... o sucesso passou, não são mais assunto, mas travam uma luta desesperada para não serem esquecidas de vez. Para piorar, o tempo muitas vezes é cruel mesmo e leva os atributos de outrora embora. Todo aquele pseudo futuro brilhante de diva não vingou e aí ficou o quê? Viver da época boa que passou... Ôh judieira... tanto para viver aqui e agora e a pessoa presa lá atrás... A queridinha iludida não aprendeu a se gostar, por todo o tempo só buscou o amor dos outros, acreditando que precisava responder à expectativa de toda sua legião, assim como fazia com seu papai. As adolescentes tardias passam a viver do passado, pois precisam voltar ao tempo que se sentiam adoradas para se gostar, porque não aprendeu a fazer isso por conta, não conseguiu se enxergar sem os olhos de fã do papai e assim, se comportam como uma eterna ex-miss, que não conseguiu fazer mais nada divertido da vida. Para piorar, muitas delas continuam se iludindo mais e mais, aderindo a sessões que beiram o masoquismo físico e psicológico, achando que podem resgatar a beleza daqueles tempos de queridinha de sua bolha e assim voltarem a reinar, se acabando nas academias, salões e clínicas. Coxas torneadas, silicones, luzes, roupas e poses. E o João de todo dia ali do lado, mas mal a nota, deprê mesmo. Até agora não perceberam que estão atrás do que não importa.
Sei que ser a queridinha do papai é bom demais, desde que você perceba que cada pai tem a sua queridinha, e às vezes mais de uma. Eu perdi meu rei e meu castelinho de proteção, mas, graças à minha mãe, não perdi meu trono e meu lugar no mundo, pois lá atrás decidi que este era só meu, conquistado por mim, ninguém me deu e ninguém me tira.

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