quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O som do amor

Toda história de amor tem uma música tema. E eu sou testemunha ocular e auditiva dessa história. A música era “corazón apasionado”, do Julio Iglesias. É cafona eu sei, mas foi mágico, foi singelo e autêntico. Enquanto os olhares se cruzavam e reduziam aqueles 200 metros do quarteirão que moravam em 20 centímetros, passava o moço vendendo algodão doce e, em sua gaita ele tocava os acordes do galã espanhol. Era uma tarde deliciosa de domingo no interior.
Não dava para acreditar que este era o primeiro reencontro. Os dois moravam na mesma rua, cada um numa extremidade e nunca mais tinham se visto depois do primeiro e último encontro. Aqueles olhares congelados, a trilha sonora ali, ao vivo, acompanhando os corações acelerados, tudo muito adequado para o momento. O encontro anterior também tinha sido num domingo, não tinha sido planejado, pelo contrário, foi impulsivo e muito atrapalhado, pelo menos... Provavelmente eles se olhavam há muito tempo, mas bastou o primeiro encontro para tudo rolar e a sorte de principiante não estava com eles, a mãe da dama os pegou no flagra, no rala-e-rola, ela acabou com a graça e enclausurou a filha, estava chocada e preocupada, ela era muito nova para ter vida sexual, acabara de ficar mocinha. E como só acontece com as virgens, pimba! Grávida de primeira! Ah, achou azar? Então lá vai: grávida de três! A estatura do pai era muito avantajada perto daquele corpinho em formação, como três bebês iriam crescer ali dentro? Foi tenso. O que aquele pai poderia oferecer além de seus grandes olhos amarelos? Nada, concluiu a recém promovida à avó, que cuidou de tudo e ninguém soube do que se passava na casa de baixo do quarteirão. Nem o pai dos bebês. A mãe adolescente deu trabalho, rejeitou os bebês a princípio, mas depois deu conta do recado. Mesmo assim a avó não deixou nenhum dos bebês com a mãe, a casa não possuía infraestrutura para mais três e assim os espalhou em três lares, para quem tivesse condição de criá-los.
E depois disso tudo estavam os jovens frente a frente novamente, praticamente no meio da rua, cada um numa ponta do quarteirão. Paralisados. E a música sendo tocada. Parecia aquelas cenas que não parecem reais em filme, quando na melhor cena aparece um músico para incluir a trilha sonora. E foi real. O vendedor de algodão doce subindo a rua e tocando em sua gaita aquela música melosa, que no contexto se tornou romântica, parecia encomendada para a minha Babi, minha fox paulistinha e o negão vira lata da casa lá de cima. Dessa vez não apartei, nem precisei jogar água quente, eles dispersaram e cada um voltou para seu lar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário