Conversando outro dia com uma amiga ela me disse que apesar dos pesares a sua chefa era uma pessoa afetiva. Rá! Por ironia lembrei logo da minha última ex chefa. Era ela a personificação de um javali em forma humana. E para piorar, as semelhanças não se limitavam à aparência, mas estendia-se ao comportamento, aquele de atacar mesmo sem estar acuado, ou com fome, ou protegendo o grupo, enfim, ataca mesmo sem ter nenhum motivo aparente. Coisa rara na natureza. Mas não para chefes. Como toda picareta, sua especialidade era fazer política e brigar, brigar muito, para parecer uma pessoa exigente e comprometida. Si, si, muy comprometida, com o poder. Humilhar era sua prioridade, com batidas na mesa, telefones na cara, pisadas fundas, mau humor, muita contradição e falas mal educadas. Muita vergonha alheia por aquela pessoa. De cara já percebi o estilão e não era possível respeitar um javali daquele. E pra piorar a desgraçada não aprendeu a passar batom!!!! Aquilo sempre desviava a minha atenção. A grana era boa, muito boa para a realidade da minha profissão, também conheci muita gente legal, mas nada na vida compensava dividir meus dias com aquele ser. Ai, que alívio.
Em compensação, o antecessor era um Lorde. Não aquela pessoa que se esforça para ser educado e seguir protocolos, não. É uma alma gentil, que naturalmente é agradável. Com ele qualquer conversa era acréscimo fosse de trabalho ou não. Além de admirá-lo muito como pesquisador, intelectual e profissional, a sua história de vida é bastante interessante. Filho único, nascido no Nordeste, foi moço morar no Rio de Janeiro. Durante a faculdade de Economia participou do Movimento Católico de Estudantes, foi pego de jeito pela ditadura e se exilou na Bélgica. Lá terminou a faculdade e fez mestrado e doutorado em Demografia, quando voltou, ajudou a fundar o campo de estudo no nosso país. Obviamente, a influência do modo de vida europeu foi forte e o tornou ainda mais interessante, fora que não conheço outra pessoa que tenha feito a Transiberiana.
Quando seus pais já estavam bem velhinhos ele os trouxe para morar na Bela Vista. Mesmo separado e com os filhos já fora, comprou um apartamento grande, com sacada generosa para trazer alguma similaridade à Copacabana e assim deixar os pais mais ambientados. Seu pai, um dentista aposentado, ganhou um quarto extra, para ser transformado em laboratório, pois até hoje não há um só dia que ele não trabalhe em seus experimentos. A mãe já faleceu e o pai está forte, perto dos 100. Somente filho e pai dividem o espaçoso apartamento. Durante a semana uma pessoa cuida da casa e dá atenção ao senhorzinho, mas durante as noites e aos fins de semana o filho se contorce para se dividir entre o pai e os programas com a namorada. Aliás, namorada elegante à altura.
De todas as ligações que meu antigo chefe recebia, de jornais pedindo entrevistas a de seus colegas pesquisadores, a única que não tinha negativa era de seu pai. Eu adorava observar aquela cena: logo a voz de meu chefe ficava ainda mais serena e iniciava-se a discussão sobre a janta, que geralmente incluía peixe - influência de suas raízes nordestinas. Às vezes a pauta era sobre a cuidadora que não estava agradando ao velhinho. Ou então a ligação era para avisar sobre alguma coisa que estava faltando na casa, alguma dor diferente ou simplesmente quanto o filho iria demorar. O mais curioso para mim é que o filho não tratava o pai com aquela falta de paciência típica de quem responde para por fim à conversa, pois sabe onde ela vai chegar. Era um homem verdadeiramente atencioso, tratando de assuntos importantes para seu interlocutor, e hora ou outra dizia "–Sim, papai". Com este respeito e carinho aquele senhor era tratado e vai ser até o fim de seus dias. Pois ali houve sabedoria para reconhecer um verdadeiro chefe.
Em compensação, o antecessor era um Lorde. Não aquela pessoa que se esforça para ser educado e seguir protocolos, não. É uma alma gentil, que naturalmente é agradável. Com ele qualquer conversa era acréscimo fosse de trabalho ou não. Além de admirá-lo muito como pesquisador, intelectual e profissional, a sua história de vida é bastante interessante. Filho único, nascido no Nordeste, foi moço morar no Rio de Janeiro. Durante a faculdade de Economia participou do Movimento Católico de Estudantes, foi pego de jeito pela ditadura e se exilou na Bélgica. Lá terminou a faculdade e fez mestrado e doutorado em Demografia, quando voltou, ajudou a fundar o campo de estudo no nosso país. Obviamente, a influência do modo de vida europeu foi forte e o tornou ainda mais interessante, fora que não conheço outra pessoa que tenha feito a Transiberiana.
Quando seus pais já estavam bem velhinhos ele os trouxe para morar na Bela Vista. Mesmo separado e com os filhos já fora, comprou um apartamento grande, com sacada generosa para trazer alguma similaridade à Copacabana e assim deixar os pais mais ambientados. Seu pai, um dentista aposentado, ganhou um quarto extra, para ser transformado em laboratório, pois até hoje não há um só dia que ele não trabalhe em seus experimentos. A mãe já faleceu e o pai está forte, perto dos 100. Somente filho e pai dividem o espaçoso apartamento. Durante a semana uma pessoa cuida da casa e dá atenção ao senhorzinho, mas durante as noites e aos fins de semana o filho se contorce para se dividir entre o pai e os programas com a namorada. Aliás, namorada elegante à altura.
De todas as ligações que meu antigo chefe recebia, de jornais pedindo entrevistas a de seus colegas pesquisadores, a única que não tinha negativa era de seu pai. Eu adorava observar aquela cena: logo a voz de meu chefe ficava ainda mais serena e iniciava-se a discussão sobre a janta, que geralmente incluía peixe - influência de suas raízes nordestinas. Às vezes a pauta era sobre a cuidadora que não estava agradando ao velhinho. Ou então a ligação era para avisar sobre alguma coisa que estava faltando na casa, alguma dor diferente ou simplesmente quanto o filho iria demorar. O mais curioso para mim é que o filho não tratava o pai com aquela falta de paciência típica de quem responde para por fim à conversa, pois sabe onde ela vai chegar. Era um homem verdadeiramente atencioso, tratando de assuntos importantes para seu interlocutor, e hora ou outra dizia "–Sim, papai". Com este respeito e carinho aquele senhor era tratado e vai ser até o fim de seus dias. Pois ali houve sabedoria para reconhecer um verdadeiro chefe.

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