quarta-feira, 23 de junho de 2010

DNA

Bem antes dos exames de DNA se popularizarem, já era possível saber se alguém era mesmo da minha família, herdeiro da Amália Guilhermina. Basta postar um baralho à frente do candidato e observar sua destreza ao embaralhar, distribuir as cartas e contar os pontos. O segundo teste é verificar se sabe ao menos uma dúzia de jogos de carteado, com total segurança sobre a s regras, a ponto das pessoas te consultarem quando surge uma picuinha sobre o que vale e o que não vale. Porém, só o último teste pode assegurar se estamos realmente diante de um parente: o vocabulário. Para as cartas com valores grandes que chegam quando alguém já está para bater, usa-se “CARNEGÃO”. Quando vem uma carta repetida nos jogos de sequência o termo é “DUBRÊ”. Por fim, o mais adorado pelas crianças: quando tudo está perdido fala-se: “FUI PRO CU DO TIGRE”. Tudo aprendido com minha vó Mina. Quanta eloqüência, não? E logicamente não deixamos nada disso cair no esquecimento. As gerações mais novas já estão aprendendo.
Minha relação com a minha avó começou de fato quando aprendi a jogar mau mau. Eu era bem pequena, mas mesmo assim, não pense que ela deixava alguém ganhar. Aliás, se ela estava perdendo, ela roubava. No mau mau reza a lenda que quando alguém batia, ela somava as primeiras cartas e depois começava a subtrair, para não correr o risco de chegar a 100 pontos, explodir e ter que sair da mesa. Quando puxo pela memória, vejo mesmo que não fazia sentido ela ter apenas 26 pontos naquele bolinho de cartas avantajado. Bem educativo...
Apesar do mau mau ser o jogo da maioria, que podíamos nos reunir em grande grupo e eu ser bem zoada como a prima caçula e irmã do ser mais chato do planeta, era um jogo pra qualquer um. Foi quando aprendi a jogar tranca que minha relação com a minha avó ganhou densidade. E não é uma tranca qualquer, é a tranca de 15. Quinze cartas, sem morto, 75 pontos para a primeira baixada e 90 quando vul.
A paixão da vó Mina sempre foi o baralho. Com as amigas, irmãos, cunhadas, filhos e netos. Sempre tinha alguém na casa da minha vó, jogando, claro. Meu vô era o cicerone, se punha a fritar pastéis, servir, lavar louça e tomar cervejinha. Sempre tratando muito bem àqueles que faziam a diversão da minha avó. Afinal, ele não enxergava praticamente nada, não podia ser companhia para ela, não para o baralho, restava a ele vê-la feliz. Quando meu avô se foi, a presença dela entre nós se tornou protocolar, ela não estava mais com a gente. Só restava a ela o baralho. Quando o cérebro desandou com as isquemias, ela não conseguia mais jogar. Até fiz um teste, e vi que ela não reconhecia mais as ordens dos números, mas o J Q K e A ela seqüenciou, estava enraizado em algum cantinho preservado de sua memória. Teve dias que para passar mais rápido eu enchi a mão dela de cartas e ficamos jogando, mas dessa vez literalmente, só colocávamos uma carta sobre a outra no monte e só para brincar eu avisava: “estou por uma.” Acabou a jogatina e se foi a vó Mina.
Outro dia, estávamos almoçando na minha sogra e minha mãe começou a contar como fui companheira de minha avó depois da viuvez. Falava de quando eu voltava aos fins de semana à Sorocaba, e mesmo com a agenda “apertada” com os “compromissos” eu ia até a casa da minha avó para nosso carteado. Nisso eu suspirei e vagarosamente comentei: - Ai que saudade... de jogar uma tranquinha. Minha cunhada começou a rir chocada com meu comentário, ela achava que eu falaria – Ai que saudade... da minha avó. Tentei explicar, mas não sei se a convenci. O fato é que minha avó ficaria orgulhosa do meu comentário, afinal, isso que é DNA forte.

7 comentários:

  1. Está comprovado! São as avós as responsáveis por nossos vícios mais gostosos! A minha me deixou o gosto pelo café! rsrsrs
    Tô adorando!
    Beijos.
    Ah! E me lembre de nunca jogar pôquer com você. Com um DNA desses, já viu....

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  2. Lembro bem de como o baralho era importante aí... e engraçado mesmo, algumas palavras desse glossário usa-se aqui pelos lados da Caribe, principalmente o carnegão.

    Mas eu não jogo. Um dia, jogando com a sua mãe contra o Meme e a Pink, devo ter esgotado a paciência dela a tal ponto que falou "Randall, como você é BURRO!" Fora meu pai, foi a primeira e a única vez que alguém me chamou de burro. Acredito em inteligências específicas, e a minha não está nos jogos de baralho, achei melhor parar.

    A saudade de jogar tranca representa muito melhor o sentimento do que pura e simplesmente sentir saudade da pessoa...

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  3. Bia, que delícia. Adorei esta história. Preciso arranjar tempo para ler as anteriores.
    Agora, tranca de 15 a gente pode marcar de jogar com a Adriana e o Zé Luiz. Eles chamam de trancão mas pela sua explicação é o mesmo jogo! Vamos combinar!!

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  4. Bi, gostei muito dessa historia... me fez lembrar varios momentos da minha infância, minha avó paterna ( lêla ) adora jogar tranca. Crescemos com meu pai e meus tios se reunindo para jogar com minha avó. Até hj com 93 anos ela joga todas as tardes com um dos filhos ou as quintas com a glaucia. Lendo sua historia, fiquei com saudades dela, acho que estou um pouco em falta.. vou visitá-la essa semana .. rs

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  5. Fer, não sou nenhuma ameaça no pôquer, não. Diferente do war :)
    Randas, que espetáculo de tia!!! Mas, acho que eu seria capaz de fazer o mesmo com meus sobrinhos, o jogo tira a gente do sério mesmo. Já até terminou namoro.
    Clara, tá fechado! Já sinto palpitações!!!
    Bb, corre abir o baralho com sua vózinha!

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  6. Oi Bi, que texto lindo! E que saudades das nossas carteadas..das passadas de cartas pelo vão do dedão do pé. Tava valendo!
    Pois é Randas, o "CARNEGÃO" veio da Bia e quando tem carteado na Caribe ele é sempre lembrado. Herança de amiga.

    Beijos
    Flávia

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  7. Flá, que saudades de jogar na Caribe!! Me chama??? bjão

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