quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Meias, sexo e morte

Em uma de suas deliciosas crônicas Luiz Fernando Veríssimo fala que aos velhos só restam receber de presente meias de lã. Seria um sinal que o fim está próximo. Acho que há mais um alerta: se as pessoas não falarem mais de sexo com ou perto de você, vá preparando a mortalha.
Jovens e adultos falam de sexo o tempo todo, mas nunca presenciei a cena de um adulto falando sobre sexo com um idoso, nem em forma de piada. Acho que pensam que é melhor não rasgar dinheiro na frente de pobre.
O mundo é o mundo porque todo mundo (ou quase) faz sexo. E os que conseguem não morrer antes ficam velhos, para então finalmente morrer. Tudo tão óbvio: sexo, velhice e morte.
Acho uma sacanagem o caráter sagrado que traz o cabelo branco e a falta de tônus muscular. A partir dessa premissa existe um protocolo e uma lista de assuntos “pertinentes” a conversar. Isso é tão artificial e angustiante, imagino eu. O coitado do velho não pode nem falar da morte que logo a sala é recheada de clichês para confortar o vovô. Se ele quer falar, deixa falar! É verdade, vai morrer sim e se tudo der certo, será ele o próximo. E ter medo não é vergonha. Se o interlocutor não está preparado para o assunto, só escutar e não interromper já é grande coisa. O velho nada mais é do que uma pessoa que já passou por todas as fases da vida e não um ser que foi abduzido de um mundo distante e colocado na terra como velho. Engraçada essa nossa sociedade que transforma coisas naturais em tabus. E assim vamos reproduzindo os costumes para não sermos inconvenientes...
O meu avô deixou todos muito surpresos e abalados com sua morte, pois apesar de ter 83 anos, nunca ficou doente ou passou por uma internação. O bicharedo (como ele nos chamava) era um touro, então estávamos crentes que ele viajaria a cruzeiro por mais uns bons anos. Quando nos deparamos com sua morte foi um choque. Mas tão grande impacto foi saber a forma que ele se foi. Suas últimas palavras foram: “Que muito calor o quê Mina, se eu morrer, eu morro feliz.” Era dezembro e o calor era realmente grande. Depois de suas andanças por Sorocaba ele chegou em casa e resolveu aproveitar a noite de sexta que estava caindo fazendo o quê? Um sexozinho, oras! E isso em época que estimulante era catuaba e ovo de codorna. Quando a Vó Mina voltou de seu banho só pode ouvir um forte suspiro. Depois da morte do Vô Paes, o conceito “bom é morrer dormindo” ganhou novas versões.
Meu irmão e eu fomos os primeiros a chegar ao apartamento deles e na minha santa ignorância aos 15 anos demorei a entender como meu vô tinha passado mal. Minha avó, além de abalada, estava constrangida em contar, mas quando meu irmão achou melhor vesti-lo, ele me deu a fita. Foi surreal o sentimento que me causou, estava triste e feliz. Triste porque tinha acabado para eles, sabia que minha avó não viveria se não fosse ao lado dele e que seria muito doloroso a ela viver os dias que sobraram. Triste pela imensa falta e saudade que eu sentiria a partir dali, mas feliz ao constatar que ele viveu e morreu bem e por eles terem tido um casamento de 61 anos completo e feliz!
Eles formavam um casal bem bacana, despeitados, caipiras, companheiros e nunca vi uma cena de desrespeito. Eles gritavam um com o outro o tempo todo, mas eles já estavam meio surdos e sempre foram desbocados, era um código que qualquer pessoa era capaz de identificar como carinho, o contrário daqueles casais monossilábicos que não se dão conta da presença do outro. Mas daí a imaginar que eles ainda transavam? Nunca! Mesmo os filhos só sabiam de notícias de 10 anos antes, quando a minha avó contou (e matou de inveja) que não agüentava mais o ritmo do véio, afinal ela já estava com 70! Acho que as filhas e nora não souberam como falar de sexo com a matriarca e ela não tocou mais no assunto. Mas nunca me contaram nem essa parte! Ao saber, ficou mais legal de lembrar o tom levemente malicioso que existia entre os dois, que aquilo não era só farra. Nas bodas de diamante eles contaram sobre o começo de namoro: ele ia até o sítio dela a cavalo e com um capa ele a escondia e a “roubava” para poderem namorar. Nem um pouco ortodoxo para a década de 30. Na mesma festa eles repetiram algumas vezes que se pudessem viveriam tudo de novo. Quem não acreditaria? Quando os cabelos dela embranqueceram de vez ele passou a chamá-la de “galinha carijó” e não podia vê-la com as mãos ocupadas com uma assadeira quente, sem poder reagir com um tapão, que ele passava a mão na bunda dela e falava “Êta galinha carijó, essa que dá carrrdo”, a família ia ao delírio de tanto rir. Quem ria por último era ela!
Ao não falar de sexo com meus avós, deixamos de ter lições valiosas e divertidas de como esquentar e manter o casamento por mais de 60 anos. Essa reportagem nenhuma revista “Nova” fez. Vai ser difícil achar outro Zé Paes e Mina por aí... das dedicatórias nos versos das fotos até o último suspiro.

2 comentários:

  1. Adorei Bi !!
    Posso imaginar que casal engraçado eles formavam.
    Gostei da parte do tapa na bunda.... rss
    Eita veinho assanhado !!

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  2. Oi, Bia! Como vc está? Estava eu aqui em casa de bode - e de bobeira - e fui passear pela sua página do orkut. Descobri esta preciosidade... Parabéns pelas suas crônicas! Como vc escreve bem! Esta aqui em particular me é muito familiar... Morava no apartamento de cima dos seus avós e foi meu pai que ajudou a carregar o "seu" Zé Paes no elevador. Há algumas semanas estávamos almoçando e lembrando disso, e nos perguntando o pq dele estar sem roupa... Adorei saber a resposta!!!!

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